No que é que uma mulher pensa quando se apanha sozinha em viagem? Compras. E o que pensa um homem? Sexo. Não adianta negar, vem escrito nos genes. Mal um gajo se apanha liberto das amarras em terra estranja só pensa em soltar a franga.
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Pedro escutou estas palavras e não ousou contrariá-las, não porque concordasse literalmente, mas porque rebater o seu amigo e colega Bernardo era uma tarefa inglória, especialmente quando ele vinha com as suas retóricas sexistas, exacerbadas agora que o erudito tinha um blogue onde despejava as suas teorias de pacotilha sobre comportamentos.
- É por isso que eu arranjei um programa fantástico para a nossa ida a Barcelona – anunciou Bernardo. – Vai ser de arrasar.
- Vê lá no que nos metes, olha que eu quero paz e sossego – avisou Pedro, já a temer que a coisa pudesse ficar complicada naquilo que seria uma simples viagem profissional de 2 dias para uns workshops chatos de marketing, normalmente umas reuniões em cadeia onde se tiram umas conclusões muito engraçadas que depois se esquecem de imediato quando se regressa a casa. Bernardo tinha uma teoria, aquilo era uma espécie de recreio empresarial, em que os mais durões, chefes e afins, se querem exibir na brincadeira, para mostrar que são inteligentes e têm grandes ideias, e obrigam os mais fracos, os funcionários normalizados, a fazerem parte da reinação. Felizmente que havia sempre umas colegas tolhidas de boas que alegravam o joguinho, dizia ele.
- Aquilo vai se um aborrecimento completo, eu estive a ver a listagem do pessoal participantes e é uma seca, no nosso grupo estão 2 alemães convencidos que têm a mania que mandam em tudo, ainda não lhes passou o Fhuer. Bom, então de gajas é uma miséria completa, desta vez os deuses não estão connosco, só vão três e duas delas, já as conheço, são uns autênticos estafermos, daquelas que ficam em último lugar num concurso de misses mesmo quando são as únicas correntes. Há esperança apenas numa, mas não se pode arriscar. O melhor é tratar da nossa vidinha fora dali. Estive a ver umas coisas na net…
- Bom, eu nem quero saber.
- Mau-mau, mau-mau! Não te armes em pudico. Vais agora dizer que não gostavas de um pouco de Carnaval? Conheço-te bem e sei que mesmo com esse ar de sonso fazes os teus caldinhos.
- Uma coisa é uma rambóia, outra coisa são os teus esquemas. Mas vá lá, diz-me o que andaste a congeminar.
- Qual é a tua maior fantasia?
- Porra, sei lá! Achas que no meio da análise de uma pilha contratos eu consigo reflectir sobre os meus desejos secretos? Poupa-me!
- Ok, poupe-te então ao confessionário, afinal isto vai dar tudo ao mesmo. Sabes, eu já fiz muita cena, já pintei a manta de todas as maneiras, mas há uma coisa que nunca fiz e ando com a pulga a picar-me, que é participar numa orgia.
Pedro não caiu da cadeira, mas não deixou de entornar o copo de água num dos contratos, irra, já tinha que ficar até mais tarde para compor aquilo.
- É isso pá, uma loucura total, chegar ali e tudo ao molho – reafirmou Bernardo, um pouco deliciado com a atrapalhação do amigo. – Já tratei de tudo. Estive a ver na net, há um site sobre um grupo em Barcelona onde nos podemos inscrever, marcamos a noite e pronto, aparecemos.
- Eu não quero acreditar que estejas a falar a sério. Já te imaginaste realmente numa coisa destas, ainda por cima numa altura cheia de doenças.
- Ouve lá, andas a ver muitos filmes porno. Aquilo é quase inócuo, é mais mexer, reboliço e tal do que propriamente fornicanço puro e duro.
- Uma coisa na net!? Sabes lá onde nos podemos meter, tu não viste aqueles filmes de terror, Hostel e coisas assim?
- Deixa lá os filmes, aquilo pareceu-me uma coisa segura. Há uma pré-inscrição e tem lá a morada deles e tudo, aquilo é um grupo que costuma arranjar umas faenas destas.
- Bernardo Pimentel, sabes que mais? Cura-te!
Mas Bernardo não só não procurou nenhuma terapia, como levou adiante a ideia e inscreveu-se a ele e ao amigo na tal orgia. Como sempre, inventou todo os dados, mas mesmo que não inventasse o resultado não seria muito diferente, pois como o site estava em catalão não entendeu muito o que era solicitado. O pior é que não foram só os dados que ele não entendeu, todo o enquadramento da festa sexual não pôde ser muito analisado face à estranheza da língua. Sabia que era uma orgia imensa e a morada, era o que interessava.
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Na viagem até Barcelona pareciam 2 crianças excitadas com as aventuras que iam fazer nas férias. Mesmo Pedro, que rejeitou a ideia, mal se apanhou no avião começou a ficar entusiasmado com a hipótese de experimentar toda aquela loucura. O facto de não ir sozinho levava-o a sentir-se um pouco mais seguro.
Mal chegaram ao hotel o tom eufórico começou a desvanecer-se, havia uma confusão nas reservas e só havia um quarto marcado. O pior não foi o hotel estar cheio e não haver mais nenhum espaço para albergar outro dos portugas, o pior foi mesmo quando chegaram ao quarto e viram que a cama era enorme, mas de casal. Não adiantou reclamar para a recepção, do outro lado só escutavam “completos, estamos completos” ou então algo que não entendiam mas que presumiam que não seria nada abonatório sobre eles.
- Começa bem, para quem vinha para a rambóia total com todas as chicas das redondezas acabamos juntos, os 2 mânfios, na mesma cama – desabafou Pedro, sentado num cadeirão sem vontade de desfazer as malas.
- Deixa lá, que isto compõe-se. Amanhã arranjam-nos mais um quarto – sossegou Bernardo. – Além disso, também não era aqui que íamos fazer a festa.
- Era a última coisa que me apetecia, dormir contigo. Não vou dormir nada.
- Está descansado pá, que mesmo que eu um dia virasse para o outro lado não ia querer nada contigo. Já que ia ser assim, ao menos queria coisa de primeira água – brincou Bernardo. – Não é por nada, mas não fazes propriamente o meu género.
Pedro sorriu, mas, apesar do alívio de saber que podia ter uma noite descansada, sentiu o seu ego um pouco lá por baixo, afinal ninguém gosta de ser desconsiderado. Arrumaram depressa as coisas e fizeram-se à cidade, estar naquele quarto passou a ser uma situação desconfortável.
À saída do quarto, no corredor, esbarraram numa empregada da limpeza que, ao ver quem tinham saído de uma suite matrimonial, lhe lançou um sorriso maroto.
- Eu nem quero acreditar que estamos a passar por um casalinho – voltou a lamentar-se Pedro, no elevador, enquanto se olhava ao espelho e verificava se realmente não era de primeira água.
- Que ideia! Tu achas que alguém ia acreditar que um tipo como eu podia andar com um tipo como tu?!
Mais um comentário assim e Pedro quando regressasse a Portugal tinha iniciar sessões de psicoterapia. No entanto, na rua depressa virou as atenções quando Bernardo lhe apresentou a sugestão da noite.
- Como temos que estar frescos para a sessão de trabalho amanhã de manhã e depois finos para a grande festa da noite, o melhor é fazermos uma coisa simples e regressarmos relativamente cedo. Vamos apenas jantar e pronto.
Pedro não queria acreditar no que ouvia, o seu amigo Bernardo a apresentar um simples e banal programa nocturno. Devia estar doente, por certo. Ou será que afinal estava a ficar curado da sua enorme panca de tarado sexual? Não, a patologia erótica mantinha-se, o jantar ia ser num restaurante coqueluche, segundo alguns guias da capital catalã, onde a comida era supostamente afrodisíaca servida por belas empregadas em topless e fio dental.
- Vamos carregar baterias para amanhã à noite – justificou Bernardo, depois de ter anunciado mais uma das suas eleições, um pouco antes de chegarem ao restaurante, também ele escolhido na plataforma digital global.
- Para quem vai ter que dormir na mesma cama, não sei se será boa ideia isto de ir arranjar excitação extra – disse Pedro, mais uma vez receoso com a ideia de ter que compartilhar a cama com um homem, logo ele que se pudesse, mesmo casado, dormiria sozinho quando fosse mesmo para dormir, pois tinha o sono muito leve e acordava ao mínimo toque.
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O problema de Pedro com uma provável libido desgovernada ficou de imediato solucionado mal entraram no restaurante, aquela noite era uma de ladies night e as suspostas ardentes empregadas em lingerie diminuta tinham sido substituídas por uns matulões de bíceps insuflados e desnudados, com apenas uns boxers, justos e curtos, de cetim lilás. Já para não falar da clientela, ruidosamente feminina na sua maioria e alegremente masculina alternativa em minoria.
- Pelo menos não falta mulherio, pode ser que ainda nos toque alguma coisa – tentou consular Bernardo, perante o desalento e o incómodo de Pedro.
Mas se tivesse tocado, por certo, não teria sido da ala feminina, mas sim de uma outra que, apesar de também vibrar sempre que um empregado desfilava com uma bandeja na mão, fazia a barba todos os dias. Afinal, dois tipos numa mesa, numa noite em que o corpo masculino era a estrela, só podiam mesmo captar o olhar de congéneres da tal minoria alternativa, e nunca a parte fêmea, que apenas os viam como mais um casalinho inacessível.
- Não percebo aqueles tipos, estão ali os dois de beijos e abraços mas não param de olhar para nós – comentou Bernardo, já um pouco desconfortável com a investida à distância. – Não chegam um para o outro? Parece que querem ainda mais.
- Não eras tu que querias uma orgia? – ironizou Pedro. – Se calhar eles também. Será que não se inscreveram na mesma festa? Vê lá!
- Até podem lá estar, mas não vão faltar mulheres, eu vi umas fotos no site de festas anteriores.
- Fotos, mas os gajos publicam fotos? – perguntou Pedro, engasgando-se com um pedaço de beringela com queijo, que já lhe estava a custar passar na garganta, pelo facto de ela vir montada numa forma fálica.
- Ná, devem ter tirado só umas como exemplo, para as pessoas verem como aquilo é. Além disso, já te disse que o pessoal está todo nu mas tem uma máscara.
Se o jantar já estava a ser desconfortável naquele momento passou a ficar aterrador, Pedro não parava de pensar na festa, como é que ele ia andar nu no meio de uma multidão, com uma mascara ridícula na cara, e ainda poder ser fotografado? Se um dia se soubesse daquilo lá pelos lados das terras lusas, não só Paula lhe punha a mala à porta, como a sua querida mãezinha dava entrada numa urgência hospitalar em estado terminal. No entanto os pensamentos sinistros depressa lhe passaram quando reparou que tinha quase uns glúteos espetados na sua cara. Um empregado fazia uma dança especial com as ancas para umas clientes da mesa ao lado e num dos passos mais ginasticados espetou o seu traseiro de ginásio em direcção à mesa de Pedro.
- Ainda bem que estes gajos se depilam – observou Bernardo.
- Porquê, na tua primeira água não podem estar peludos?
- Não, apenas estar aqui a comer, ou a fingir que tal, e andarem estes marmanjos em cuecas a passear de um lado para outro, não seria muito recomendável se os gajos fossem peludos. Engraçado, vejo que amofinaste com aquilo de não seres a minha primeira água.
Pedro não respondeu à provocação, sugeriu que fossem embora, estava com vontade de ir à casa de banho e a ideia de ir à do restaurante assustava-o um pouco, não queria ter encontros imediatos de terceiro grau com a clientela masculina presente num sitio onde se tem que deitar calças abaixo. Mas a conta demorou e pressão urinária não sossegou, Pedro acabou mesmo por ir às instalações sanitárias daquele espaço que estava a ficar pior do que a casa fantasma.
Entrou a receio. Aparentemente não estava ninguém. Dirigiu-se imediatamente ao urinol. Quando estava a meio da sua libertadora função sentiu que uma porta de uma cabine se abriu. Não olhou, tentou manter-se tranquilo, apesar de se aperceber que quem estava nos lavatórios podia enxerga-lo directamente naquela situação. Esse facto provocou nele uma contracção, impedindo-o de chegar ao fim do acto. Por fim, com algum esforço chegou ao epílogo do alívio. Terminada a função, apertou as calças, voltou-se e dirigiu-se ao lavatório. Ficou para morrer. Ao espelho, estava uma bonita mulher retocando a maquilhagem.
- Perdon, tive que venir aqui – disse ela. – La nuestra estava completa e yo mui apertadita.
- No problema – disse Pedro, arranhando um espanhol pouco ortodoxo, aliviado por a invasora ser uma mulher, mas embaraçado por ter estado naqueles preparos também à frente de um exemplar do belo sexo.
- Vale, aqui somos todas chicas, non?!
Antes de sair, e depois de ter guardado a maquilhagem na carteira, a espanhola deu mais uma olhadela para Pedro.
- Poes en outra encarnacion, se te vienes al outro lado de la fuerza, llama-me. Es que está mui bueno, hombre!. Que malgastar, por Díos!
Bernardo estranhou a boa disposição com que Pedro voltou da casa de banho, mas nem perguntou a razão. Não queria mesmo saber.
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Chegados ao quarto iniciou-se o processo mais complexo da noite, dormir na mesma cama. Sem terem combinado nada, adoptaram uma estratégia idêntica, dormir cada um junto à sua beirinha, no limite do abismo do colchão. Assim, não havia o perigo de nem um hálito tocar no outro. Resultado, foi uma autêntica noite em que esteve a chover homens no chão. Pelo menos, assim pensaram os ocupantes do quarto de baixo que passaram a noite a ouvir ora um, ora outro, a cair da cama. Tal foi o número de quedas, ao mínimo movimento do sono iam pelo abismo abaixo, que os hóspedes de baixo fizeram queixa na recepção pelo reboliço da noite. Mais uma vez Pedro e Bernardo tiveram que levar com um sorriso maroto, quando o concierge lhe pediu que fossem mais discretos na próxima noite.
Felizmente que era um novo dia e tinham um workshop pela frente. Durante as sessões, poderiam ter anunciado as suas promoções a vice-presidentes que eles nem notavam, tal era o estado embrenhado dos seus pensamentos com a finalmente grande e explosiva festa que os esperava pela noite.
Foi com alguma dificuldade que se livraram do programa cultural que a organização tinha perspectivado para a noite, uma jantar de comida catalã e uma ida a um espectáculo de teatro de vanguarda, um dos muitos que anima a bela urbe de Barcelona. Lá disseram que tinham um parente a viver na cidade e que tinham combinado um jantar com ele.
- Era o que mais me faltava aturar estes estafermos também pela noite. A única tipa de jeito tinha que ser casada com aquele estafermo do vice-presidente dinamarquês – comentou Bernardo enquanto iam a caminho da ditosa orgia.
Pedro nem respondeu, ia num estado de nervos tal que as palavras ficavam entaladas. Nem mesmo ao jantar, onde despacharam umas sandes à pressa, soltou o pio. Bernardo, pelo contrário, falava e falava sem parar. Talvez também por estar nervoso.
Tiveram alguma dificuldade em encontrar a rua onde ia decorrer o grande evento, mas ao fim de algum tempo estavam numa ruela, mal iluminada e apertada, que ostentava na placa o mesmo nome que eles traziam apontado num papel.
- Achas mesmos que devemos entrar? – perguntou Pedro receoso.
- Ó pá, agora que chegamos até aqui, vamos até ao fim. Estamos os 2 juntos nada nos pode acontecer. Além disso, estamos em Barcelona, uma das cidades mais desenvolvidas do mundo, não estamos propriamente num paíseco obscuro qualquer.
- Promete-me uma coisa, se a coisa não estiver a correr bem para um de nós, saímos os dois, ok?
- Claro, isto só tem piada se tivermos bem os dois e não um a fazer o frete porque apenas o outro quer lá estar. Vamos?
- Ok. Algarve, aí vamos nós!
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Riram-se. Ajeitaram os casacos e tocaram à campainha. Um fulano de quase 2 metros de altura e com uns ombros mais largos do que a própria porta atendeu-os, começou por lhe perguntar os nomes e a identificação. Confusão geral. Bernardo tinha dado nomes falsos e não tinha nenhuma identificação que provasse essa identidade criada na net. Num espanhol meio confuso lá lhe disse que se tinha enganado nos nomes, o que enfureceu ainda mais o gorila, que gritou que aquilo era uma coisa séria, de responsabilidade. Com a confusão apareceu um outro fulano, menos encorpado, que acabou por achar piada ter ali 2 portugueses a querer participar naquilo e deixou-os entrar, não sem antes os ter obrigado a identificar e a assinar um papel em que assumiam que era por livre vontade que ali estavam. Pelo menos era isso que eles acharam que assinaram, dado que estava em catalão a declaração em causa.
O segurança encaminhou-os para uma sala ampla onde várias pessoas se despiam. Bernardo e Pedro tiraram logo o retrato dos restantes participantes. Ficaram mais aliviados, a população masculina era maioritária mas havia, mesmo assim, uma representação razoável do sexo feminino, algumas delas bastante interessantes, segundo a douta opinião de Bernardo.
Despiram-se discretamente a um canto. Quando iam tirar a roupa interior, alguém lhes disse que a podiam manter até ao início da orgia se quisessem, ou, pelo menos, foi isso que eles entenderam. Assim fizeram, havia que guardar bem o trunfo para quando o jogo fosse a sério. Um outro tipo corpulento começou a distribuir umas máscaras para que as colocassem durante todo o acto. Pedro achou uma parvoíce, ir colocar máscaras agora que todos já tinham visto a cara um dos outros, mas mesmo assim colocou a sua. Será que iria aparecer alguma alta individualidade? Quando se olhou ao espelho sentiu-se ridículo, estava assim uma espécie de Zorro em cuecas.
- E se eu não conseguir ficar no ponto? – perguntou Pedro aflito, como uma criança pronta a desistir da brincadeira por ter a sensação que não ia ganhar.
- Tarde demais para teres dúvidas existenciais, não achas?
- Não sei se com esta gente toda me consigo excitar, já viste a confusão que vai ser? Olha para o maralhal que está aqui?
- Não penses nisso. Entra na cena, vais ver que no meio daquele reboliço ficas uma fera. Além disso, ninguém te conhece para falar de ti.
O tempo para Pedro hesitar não foi muito. Um tipo, vestido à guarda romano, começou a falar qualquer coisa, em catalão, enquanto que outros dois, vestidos da mesma maneira, rodearam o grupo.
- Não estou a gostar disto – comentou Pedro ao ver as novas personagens com uns arpões de cabo grande na mão. – Para quem vem para uma coisa destas, ver aqueles gajos com paus pontiagudos na mão não anima muito.
Mesmo sem entenderem o que dizia, perceberam que o guarda centurião dava as instruções para o acto. Na orgia podia ser tudo ao molho, mas pelos vistos tinha mais regras do que uma coreografia da companhia nacional de bailado. Perdido por cem, perdido por mil, não se preocuparam mais e deixaram-se ir na onda. Primeira tarefa, tirar a ultima peça de roupa. Num instante todo o grupo ficou pronto a ir a banhos numa praia nudista. Pedro, mesmo assim, lá colocou as mãos à frente, que ainda não estava na hora de mostrar o seu tesouro, queria mesmo impressionar quando estivesse no ponto.
Entraram para uma sala, não muito iluminada, em que um enorme e redondo colchão cobria o chão. Subiram para a plataforma do amor mas ficaram estáticos como que à espera da ordem de partida, que não tardou, pois o guarda romano, que conjuntamente com os outros dois se colocou à volta do grupo, disse qualquer coisa que devia significar começar. Mal foi proferida a palavra de largada todo os colegas sexuais começaram a movimentar-se num ritmo bastante espalhafatoso, eles apalpavam-se, eles rebolavam-se um por cima de outros, eles guinchavam. Pedro, um pouco tonto, olhava especado para tudo aquilo.
- Mais do que prazer, parecem é que estão possuídos – pensou Pedro, enquanto tentava procurar Bernardo no meio da multidão, mas este nem ligou ao olhar do amigo pois já estava bastante empolgado com duas louras que lhe couberam como vizinhas.
Com alguma dificuldade, Pedro tentou abstrair-se e entrar no jogo, começou por procurar algum pedaço de boa carne que fosse bom para mexer, mas não via meio de chegar a terra firme. Por fim avistou uma donzela deitada que lhe pareceu uma boa forma de começar, dobrou-se para chegar a ela mas a meio da viagem foi interrompido. Um grande, gordo e peludo rabo masculino quase que se enfaixou na sua cara. Sentiu um dilúvio de suores frios com a contemplação daquela paisagem tenebrosa a poucos centímetros dos seus olhos. Recuou de imediato e só não saiu a correr porque naquele momento isso ainda seria mais complicado. Enquanto isso, todo o resto do pessoal parecia bastante animado, pelo menos agiam como tal.
Pedro acalmou-se e tentou fazer nova investida, agora que o proprietário do traseiro horribilis já se tinha desviado, mas voltou a ser suspenso na tentativa de acesso ao jardim das delícias, pois o braço de uma parceira, bem animada com a sessão, bateu-lhe na cara e fez saltar-lhe a máscara. O seu acessório de zorro depressa voou e foi cair no meio de um entrelaçado de corpos. Que fazer? Pôr-se de cócoras à procura do sua peça de anonimato, jamais, num cenário daqueles seria a morte do artista, era preferível mostrar a sua graça de fronte, assim como assim, ninguém o conhecia.
À terceira foi de vez, conseguiu finalmente entrosar-se com o pessoal e lá se agarrou a uma espanhola que parecia eléctrica, tanto nos movimentos como no falar. Mais do que deleite, Pedro sentia era uma enorme vontade de rir com tudo aquilo. De repente, quando começou a sentir mais qualquer coisa, sentiu-se a elevar, sentiu que o chão se erguia. Bernardo tinha falado da explosão de prazer que seria uma coisa assim, mas daí chegar ao céu com aquilo tudo ia uma grande distância.
Ao céu não chegou, mas ao topo de um palco foi de imediato. Lá estavam eles, toda a orgia, bem no meio do palco enquanto que um conjunto de actores debitava umas falas para a plateia.
Podiam ter pensado em tudo, inclusive que seriam esquartejados, mas nunca que a famosa orgia, onde se tinham inscrito, era apenas uma perfomance de um grupo de teatro vanguardista catalão que levava à cena a peça a Orgia do Poder, onde, todas noites, recrutava anónimos, através da Internet, para comporem a orgia-quadro que fazia parte do último acto, uma mistura de teatro pós-moderno com uma instalação humana.
Meio cego com as luzes e aturdido com toda aquela movimentação, Pedro caminhou um pouco até à boca de cena para perceber o que se estava passar, mostrando-se assim, como veio ao mundo, a uma plateia. O seu tesouro, no qual ele tinha, digamos, um imponente orgulho, e que até tinha impressionado uma espanhola caliente numa casa de banho, ficou, naquele momento, reduzido a um autêntico tesourinho, quando vislumbrou uma mar de gente a assistir. Os actores, temendo complicações, lá o desviaram para não interromper mais a marcação. Mas ele não parava de olhar tudo aquilo, de boca aberta. Como era possível estar ali? O público também se interrogava porque razão só havia um soldado da orgia que não tinha máscara, especialmente o pessoal da primeira fila, colegas de trabalho de um workshop sobre marketing, que num roteiro cultural na cidade tinham escolhido aquela peça de vanguarda intelectual.
- Oh my God! That one isn’t Pedro, the guy of Portugal? – gritou uma das senhoras do grupo excursionista empresarial.
Aquilo que era uma orgia controlada, quase coreografada, virou, de um momento para outro, uma bagunça. Pedro começou a saltar por cima daquela gente toda para sair dali, mas só sentia braços e pernas a prende-lo, como se estivesse a lutar contra um polvo gigante. Decidido a levar até ao fim a sua fuga não hesitou em empurrar e calcar, mesmos nas partes menos próprias, quem se pusesse na frente. Assim, depois de gemidos de prazer, passam a ouvir-se berros de dor com asneiras, numa língua estranha, à mistura. Mal se livrou da teia labiríntica de corpos, tentou encontrar uma saída no palco, mas as luzes e uma encenação modernista impediam de a encontrar. Só quando deitou abaixo 2 pilares, um arco, umas estatuetas e uns cortinados de veludo vermelho, encontrou finalmente a saída do palco. Quando já estava tudo a ficar mais calmo, Bernardo emerge do meio da pilha de corpos e sai a correr atrás do amigo, afinal pacto era pacto.
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Só quando se apanhou no avião de volta Pedro se sentiu aliviado. Ainda nem queria acreditar no que tinha acontecido. Imagens em flash invadiam-lhe a mente. Tentou esquecer todos risinhos parvos dos colegas do workshop no dia seguinte, sempre que olhavam para ele, para ver se dormia um pouco, afinal não tinha pregado olho na noite anterior.
O pessoal do avião quase que entrou em pânico quando ouviu um berro. Pedro, ao ter um pesadelo, gritou, sonhara com um traseiro grande, gordo e peludo a voar mesmo em cima se si.
Paula não percebeu porque durante uns tempos o marido não estava interessado em sexo. Cismava que ele tinha arranjado uma espanhola.
