Deus está em toda a parte. Deus sabe tudo. Então, se num acto de fúria, e farto desta pouca-vergonha da sua criação, ELE quebrasse o seu eterno silêncio e resolvesse, um dia, dar com a línguas nos dentes, contando tudo o que sabe? E se, em lugar de fazer ecoar o seu recado com altos trovões, escolhesse as novas tecnologias para passar a Sua Palavra, a Sua Fúria?

- Drª Ana, já viu isto?
Ana Figueiredo, inspectora-chefe da Policia Judiciária, levantou ligeiramente os olhos dos papéis que analisava, meticulosamente espalhados na sua secretária, como que a fazerem um jogo harmonioso com todos os restantes pequenos objectos à sua volta, também arrumados e colocados de uma forma minuciosa, numa espécie de exposição cuidada que se prepara para uma fotografia que pretende ilustrar o empenho profissional de uma alta figura numa revista de moda, e que poderia ter como legenda, Ana, uma inspectora de alto nível, a estudar mais um dos seus difíceis casos.
- Pois não? – apenas por uma questão de educação Ana mostrou algum interesse na questão.
- Este blogue aqui na internet – insistiu Miguel Pinho, um inspector pós-estagiário, companheiro de gabinete e de equipa.
- O que tem?
- Chama-se A Fúria de Deus e diz que ele vai dar com a língua nos dentes. Escute, por favor! – Miguel releu em voz alta o descritivo do blogue, enquanto Ana fingiu escutar. – Mas há mais, ouça o que ele diz no seu primeiro post.
Como mensagem divina, não esperem aqui boatos e o diz que disse, o eterno conteúdo da maioria dos blogues. ELE tem mais que fazer do que se armar em e-porteira. O que vão ver aqui são factos que importam conhecer, com todos os detalhes. Repor a verdade a que todos têm direito. Pior do que os actos contra ELE e contra a sua criação, é a mentira que insistem em contar, é a verdade que teimam em ocultar. Dentro em breve o primeiro caso irá surgir. A partir daqui nada será como dantes, o segredo deixou de o ser. O Mensageiro.
- Isto está demais! – comentou Miguel, continuando com os olhos postos no ecrã.
- Se quer que lhe diga, não percebi nada – comentou Ana, enquanto tentou voltar aos seus papéis, já não lhe bastava aquele labirinto de dados para analisar, agora ainda tinha que ouvir mais aquelas patranhas de gente deserdada da vida que tenta consolar os seus dias infelizes em desabafos electrónicos.
- Não percebeu ou não ouviu?
- Sabe que eu não estou muito por dentro dessa realidade dos blogues. O que eu sei, é que as pessoas se aproveitam dessas coisas para dizerem o que lhes passa pela cabeça, sem responsabilidade nenhuma. De repente, parece que voltaram todos a um tempo de uma certa infantilidade, em que, quais crianças irresponsáveis, vão para o recreio dizer e fazer todos os disparates que lhe vêm à cabeça, como que para aliviar a compressão de terem estados fechados na sala de aula. O problema é que não têm um vigilante para lhe puxar as orelhas quando se portam mal e pisam as marcas da boa educação.
- É a liberdade pura, cara doutora. Antigamente só uns eleitos tinham acesso à comunicação, hoje qualquer um pode dizer e mostrar ao mundo aquilo que lhes vai na alma, inclusive até mostrar o seu talento escondido.
- O seu talento ou o seu resquício intelectual? A mim parece-me que, na maioria das vezes, apenas fazem exercícios de mediocridade disfarçados de liberdade de expressão. Por amor de Deus, não me vai dizer que em cada um desses que vive a vida a publicar coisas na internet, há um escritor, um poeta ou um jornalista talentoso que só a obscuridade doentia da oportunidade social ainda não lhe permitiu ver a luz do reconhecimento. Algumas das coisas que me foram dadas a conhecer não passam de meras expulsões de mediocridade, que ficariam, sim, muito bem guardadas eternamente na intimidade dos seus pensamentos.
- Não é bem assim, anda por aí muita coisa com bastante qualidade. Claro que no meio, se calhar a maioria, há muito joio, mas não nos podemos esquecer do bom trigo desta nova seara electrónica. Além dos mais, são eles que trazem a lume coisas novas. Já viu? Este promete revelar grandes segredos. Se fizer o que diz, vai ser lindo, ai vai, vai!
- Mas ele, afinal, vai revelar mesmo o quê? – perguntou Ana a tentar rematar aquele assunto, que além de não a interessar a estava interromper continuamente.
- Não sei. Para já é só uma promessa, vamos lá ver o que sai, agora a piada é que ele assina como Mensageiro de Deus. Não deixa de ser uma ideia engraçada, esta de Deus quebrar o seu eterno silêncio e dar com a língua nos dentes.
- Meu querido, deve ser mais uma situação de boataria na Internet. Não produz nada, e o Miguel sabe isso muito bem, mas provoca sempre estragos nas vítimas. É pena que depois não haja justiça, nem dos homens nem divina, para reparar os estilhaços dos boatos.
- Eu sei, mas confesso que este me deixou curioso, nem que seja pela originalidade. Esta de Deus interromper o seu longo silêncio para pôr a boca no trombone é algo que nem os filmes mais estúpidos se lembraram.
- Ouça, deixe que lhe digue uma coisa giríssima, o que seria mesmo estupendo era que ele revelasse algo sobre este caso da rapariguinha do shopping, pois como as coisas estão não vejo forma do processo andar.
Ana e Miguel tinham em mão um suposto de caso de corrupção e peculato de um autarca que foi baptizado na comunicação social como o da rapariguinha do shopping, por envolver a construção de um grande espaço comercial e a chave de tudo estar numa simples rapariga, empregada de um restaurante.
- Quer a minha opinião, Drª Ana? O caso não nem anda, nem irá andar. Suspeitas e mais suspeitas, mas provas nem uma em concreto. Ainda por cima a principal testemunha foi apanhar ares para Copacabana.
Ana agitou ligeiramente a cabeça, em jeito de concordância, e volta aos papéis, ele, apesar de tudo, tinha razão. A forma como toda situação foi orquestrada, bem como a condução da investigação inicial, dificilmente ira aportar um bom desfecho policial.
Miguel levantou-se em direcção à janela que devolvia uma luz brilhante de um bom dia de primavera.
- Lisboa tem uma luz única – refere Miguel, enquanto afastou umas persianas de linho cru, em estilo japonês, mais adequadas a um gabinete de uma revista de decoração do que propriamente a um espaço policial.
- Sim, Miguel! Mas com certeza não é com a vista horrível dessa janela.
Miguel sorriu, afinal um conjunto de andaimes de um eterno prédio em obras não era realmente uma boa paisagem, e aproximou-se da secretária de Ana.
- Está com pouca vontade, hoje – disse Ana, sem tirar os olhos dos papéis.
- Só hoje? – riu-se ele com a observação, apesar de não ter gostado da indirecta sobre a sua pouca apetência para o trabalho.
- Palavras suas, Miguel, eu não disse nada.
- Sabe, eu tenho um terrível defeito. Quando vejo que não consigo avançar numa coisa, perco a vontade e desisto. É terrível, mas sou assim.
Ana levanta-se repentinamente, ajeitou a sua saia-casaco de bom corte, e, como numa marcação teatral, colocou-se no centro da sala. Olhou Miguel seriamente.
- Então, meu caro, escolheu a profissão errada. A investigação criminal é uma luta constante contra um caminho que teima em estar quase sempre fechado e sobre o qual temos que abrir saídas. Mesmo assim, com pequenos passos por vezes conseguimos. Se gosta de acção, pneus a chiar irritantemente, então, meu querido, vá para realizador de filmes policiais, que aí sim tem esse ambiente.
- Oh Dr.ª Ana, acho que me interpretou mal. Apenas tento ser eficaz na afectação de recursos. Acha mesmo que o caso tem pernas para andar? O fulano foi reeleito, o shopping está quase construído e o grupo económico é intocável. Não há pistas de dinheiro a andar de um lado para o outro. Ainda por cima a brasileira, que começou a dizer alguma coisa, desapareceu.
- Se eu desistisse sempre que o cenário tivesse esses traços, já estava nos serviços administrativos há muito. Olhe, para contrariar esse seu pessimismo, vá lançando todos aqueles movimentos bancários num ficheiro, para depois os cruzamos, o menino tem mais jeito para essas coisas informáticas. Eu já volto.
Sem mais palavras, Ana saiu do gabinete. Miguel ficou a olhar para a porta, a pensar que aquela parceria não ia acabar bem. Não eram aqueles os seus sonhos para uma carreira na polícia criminal. Primeiro, foi colocado na área dos crimes económicos, cuja acção era directamente proporcional à sua resolução, nenhuma, depois, em lugar de ter um agente como assistente, para o livrar das tarefas menores, foi ele próprio, inspector de gabarito, para auxiliar de um inspector-chefe, apesar de oficialmente não ter esse estatuto. Tudo se complicava pelo facto de não ser um inspector-chefe qualquer, era Ana Figueiredo, uma prima-dona da investigação criminal, uma mulher que parecia mais adequada a figurar nas páginas de papel couché de revistas elitistas do social do que a saltar para dentro de um carro e arrancar a toda a velocidade, até porque esse tipo de acção, provavelmente, estragar-lhe-ia o escultural penteado.
Miguel olhou para os extractos bancários em cima da secretária da Ana, hesitou pegar neles, mas acabou por se decidir pela volta à sua navegação na internet. Abriu novamente o blogue A Fúria de Deus e olhou-o fixamente, como se o tivesse a decifrar, e, qual miúdo com uma história infantil, ficou a fantasiar com o tipo de denúncias que se iam soltar daquela janela electrónica.
Nota: Primeiro capitulo de um romance escrito em 2007 (a semelhança do titulo com outra obra é pura coincidência) e com publicações de rascunhos no Blogue com o mesmo nome e no Imagens Caída ( Aqui e Aqui)
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