Conceição e Amélia eram as duas únicas filhas moças dos dois grandes lavradores da região, os irmãos Bento de Oliveira, donos de quase todas as propriedades em volta de Vila Maria e arredores. Essa abastança não era de estranhar, descendentes directos do Comandante Pedro Vaz de Oliveira, homem de grande influência na corte, que a medo das aragens republicanas, que começavam a soprar no raiar do século, decidiu largar os negócios do mar e mergulhar nos ofícios da terra, precisamente nas quintas e montes que entretanto tinha adquirido para as suas caçadas, eventos de grande importância na região pois algumas delas contavam com a presença de sua alteza real. Em voz baixa, como sempre acontecia quando se falava da vida dos poderosos, dizia-se que muitas das herdades nem compradas tinham sido, umas artimanhas nos registos e os limites das propriedades foram alargados e unidos até que a vista o permitiu.
As duas primas, quase da mesma idade, a estudar no melhor colégio de Lisboa para raparigas, raramente saíam da capital para as terras do Alentejo porque o sol e o frio era muito agrestes para a tenra e delicada pele das meninas, mesmo quando acabaram os estudos possíveis para qualquer moça da época, com os pais já definitivamente instalados nas propriedades, ficaram a viver no pequeno palacete nas Janelas Verdes, um casarão que a tempestade da República não tinha devorado, com uma velha tia solteirona. Apenas no natal de 1914, não só para as resguardar de possíveis ventos de guerra que começavam a soprar, mas sobretudo para as afastar de dois revolucionários republicanos que as cortejavam simultaneamente, se instalaram na Quinta da Ponte e na Herdade das Gralhas, morada fixa de seus pais.
Nem o facto de se terem mudado dos ares da grande cidade para os do campo lhe alterou as rotinas diárias, ajuda nos labores de casa pela manhã, o pessoal se não for orientado na faz nenhum, bordados e piano pela tarde, felizmente que na região havia um velho professor para continuar as lições, continuaram a ser tarefas desempenhadas como se ainda vivessem no palacete. Mas se para Amélia a adaptação fora fácil, aquela paixão não era coisa para si, para Conceição a mudança trouxera-lhe uma tristeza profunda, mais do que as calçadas de Lisboa, o seu coração sentia o vazio do rapaz que fazia vigílias debaixo da janela de seu quarto. Já o seu pai pensava mandá-la de novo para a capital, os meses de cama, a que caíra, pareciam definhá-la, quando, subitamente, ganhou alento e novas cores, primeiro ainda pensaram que era do calor tórrido do Verão, que abrasava campos e corpos nos dias largos, mas depois suspeitaram que algo mais se estaria a passar, especialmente porque os passeios solitários, coisa estranha na época para uma rapariga solteira, a que se dedicava todos os finais de tarde, a deixavam com uma alegria cintilante no olhar. Só com o cair do estio e o soltar da língua dos locais, os pais puderam verificar que a sua querida filha andava perdida de amores por um trabalhador temporário que naquele ano tinha vindo fazer a época da ceifa. Com um sorriso rasgado e um ar atrevido, ele depressa conquistara o coração delicado, e ansioso de novos latejos, da mais formosa moça das redondezas com quem se cruzava todos os dias nos campos contíguos do monte.
Antes que o escândalo desabasse sobre si, respiraram todos de alívio com o final da época de Verão, os ratinhos tinham regressado a terras do norte, e Conceição mais uma vez ia esquecer os arrebates românticos. Enganaram-se, o rapaz, por vontades amorosas ou de cobiça, resolveu ficar por perto, a trabalhar num pequeno monte que não era de ninguém da família dos Bento de Oliveira, e desta forma continuou o seu cerco de namoro. Com todos os cuidados, o par apaixonado conseguiu manter secreto o romance, nem à prima, confidente de todas as suas mágoas, Conceição contou, sabia que ela desaprovava tal amor, já lho tinha referido várias vezes, e que ia logo contar ao tio, o que era a mesma coisa que contar ao seu pai.
Quando um dia, ano e meio mais tarde, numa taberna de uma aldeia vizinha, os irmãos de Conceição escutaram uns risos sobre a família, que quase levou a briga de navalhas, é que perceberam como andavam todos enganados, o maldito aproveitador não tinha ido embora, pelo contrário, como caçador à espera da presa, manteve-se vigilante a montar a armadilha para atacar na hora certa. Ao chegarem ao monte, em galope acelerado, para avisar o pai e mandar a mana de imediato para Lisboa para purificar suas virtudes, verificaram que já era tarde para grandes decisões, Conceição, com 21 anos e julgando-se maior, tinha partido sem deixar rasto, apenas um bilhete à mãe a pedir perdão pelo que ia fazer mas a felicidade era um caminho que só pondo os pés nele é que se alcançava, e o dela começava ali, naquele momento, a ser calcorreado. Ainda chamaram todos os homens do monte, mais os da herdade do tio, e resolveram fazer uma batida pela região, como se à caça da raposa estivessem, mas foi em vão, o casal apaixonado sumira pelos trilhos esquecidos e nem o pó levantado deixara marcas para contar. Mário Bento de Oliveira amaldiçoou-os, nunca vão ver um grão de trigo desta terra, gritou ele à porta da casa grande do monte, perante todos os que tinham participado na busca e que regressavam sem notícias, a morte pela fome é o que os espera. Mas a morte veio de outra maneira, e não esperada, dez anos mais tarde, em 1926, ao ouvirem que Conceição vivia em Lisboa numa casa mal afamada, onde o homem que a desonrara a pusera a render nos vícios do prazer, os irmãos fizeram-se à estrada e foram até à grande cidade para lavar a honra e trazer o grão que ainda restava dela para casa, só que, quis o destino que naquele Maio houvesse pela capital grande alvoroço, e um não respeitar as ordem de um batalhão militar, que fazia parte do movimento que tomava o poder de então, fez com que fossem disparados vários tiros sobre eles, de certeza que eram mais uns anarcas republicanos, quiçá comunistas, atirando-os para o rol anónimo das vitimas daquele dia que a História haveria de marcar.
Sem filhos homem, a terra já os tragara, e sem filha, o destino também a devorara, Mário Bento de Oliveira perdeu o rumo aos dias e foi desfazendo-se aos poucos, em gestos loucos de agonia. Perante o desnorte do marido, os negócios da lavoura morriam com a alma do dono, a mulher, uma senhora da finada corte que um casamento arranjado um dia a fez cair por aquelas terras perdidas, resolveu entregar ao cunhado a exploração de todas as propriedades, ficando apenas com o Monte das Gralhas para viver e ir enterrando lentamente o homem que se deitava na sua cama. A ameaça do que o marido, na sua alucinação perdida, andava a apostar as terras com qualquer estranho que lhe aparecia, fizera com que o cunhado a convencesse a ceder-lhe as propriedades de papel passado, com a promessa que um dia, se a filha voltasse, ele lhe devolvia tudo. Mas esse dia chegou e nada mudou, passados sete anos a filha voltou e apenas encontrou o Monte das Gralhas como seu, as terras que o seu olhar, em tempos, perdia de vista eram agora um pequeno horizonte que terminava logo lá em baixo a seguir ao laranjal da horta.
Mário já não a viu o regresso da sua menina, a loucura comeu-lhe ainda mais os dias tristes e numa tarde, corria o ano de 1932, foi encontrado caído, sem réstia de vida, debaixo do grande chaparro, onde costumava ficar desde o nascer até ao pôr-do-sol, agarrado ao tarro grande que sempre o acompanhava, referido por ele como o pote das libras de ouro que ganhara com a venda das terras. Não se sabe como a notícia chegara a Conceição, mas o certo, é que passado pouco tempo, apenas dois meses após a morte do pai, ela chegou ao Monte das Gralhas na companhia do homem que lhe traçara o destino. Com 37 anos perdera a graça e a leveza de menina fina, os cabelos dourados, outrora sedosos e bem penteados, eram, então, pardos e desalinhados, o corpo ganhara peso e disformidade, e a voz arrastava as palavras num som dorido. Até José Ramiro já não mostrava a boa figura que impressionara em tempos, conservava ainda o grande porte mas o seu trato já não seduzia, o seu rizo rasgado e cativante dera lugar a um ar carrancudo e de poucas falas. Apesar de tudo, a viúva recebeu-os de braços abertos, como se tivessem sido sempre íntimos da casa, e mandou preparar uma grande festa, para receber a filha pródiga, qual reincarnação bíblica. Chamou o cunhado da Quinta da Ponte, também viúvo, e os primos Amélia e Alberto para que se voltasse a criar a santa união da família.
- Está na hora de virarmos o destino, quero que nos devolva tudo, a Sãozinha está aí de novo e agora é ela, com o marido, que devem tomar conta de tudo – pediu a viúva de Mário ao cunhado Afonso, num momento em que o afastou da mesa, cheia de fartas iguarias, para uma sala ao lado.
Obteve a concordância imediata do cunhado mas não o seu cumprimento. Quando, logo no início da semana, a charrete subiu ao Monte das Gralhas para irem todos à cidade, ao tabelião, desemaranhar os negócios, Amélia, ao subir ao quarto, encontrou a sua tia e madrinha, da qual herdara o nome, adormecida na cama de um dormir sem acordar. No dia seguinte foi enterrar Amélia madrinha e toda uma negociata sobre as propriedades à volta de Vila Maria. Desde então, só mesmo algumas vozes populares comentavam os possíveis arranjos que se fizeram em tempos, nomeadamente sempre que viam a Quinta da Ponte a prosperar e o Monte das Gralhas a definhar. Conceição e José Ramiro não chegaram a ser informados do que se passara, e até aceitaram alguma ajuda do tio para voltar a pôr a herdade em funcionamento, só mesmo com o falatório do tempo começaram a desconfiar que alguma coisa teria acontecidos na sua ausência para que toda a imensidão de propriedades ter sido reduzida àquele meio hectare de monte. Ganharam coragem e resolveram confrontar os parentes, mas não obtiveram resposta a não ser um azedume cortante que os levou a um silêncio que nem natais dava voz.
José Ramiro, desiludido com a fortuna que não lhe coubera em sorte, pouco interesse deu à sua nova condição de lavrador, preferiu antes a companhia do vinho para matar o tempo. Não se sabe se por essa cumplicidade alcoólica, ou se porque acreditou nos rumores da fantasia popular que por vezes se faziam ouvir, alma do velho Mário pairava naquelas paragens, o certo é que também cismou com o suposto pote das libras de ouro que o seu sogro, em tempos, teria enterrado perto do monte. A procura, a partir de uma certa altura, tornara-se uma obsessão e passava a maior parte dos seus dias a cavar locais que os seus sonhos ditavam. Na aldeia corria mesmo o boato que o espírito do velho Mário tinha vindo para o atormentar, a vingança que tardava, e o pôr tão louco quanto ele.
O que Conceição fizera em Lisboa, ou em qualquer outro sítio onde teria estado, nunca se soube, chegou, instalou-se e, como cortara relações com a prima Amélia, não falava com ninguém. Primeiro sozinha, depois com a ajuda das filhas, cinco que vieram de seguida, levou em frente a pequena faina do Monte das Gralhas. Todos acharam estranho que uma mulher chegasse ali com 37 anos sem nenhum rebento e depois, de repente, desatasse a parir filhas de enfiada, havia mesmo quem dissesse que o buxo dela estava tão imundo com as porcarias que tinha feito em Lisboa, que foi preciso a pureza da terra para o limpar. Mas a mais misteriosa das gestações foi quando aos 52 anos teve mais um filho, desta vez varão, sem que praticamente ninguém desse conta, o que também não era difícil pois a sua clausura no monte era quase total. O povo comentava, como sempre, que José Ramiro devia ter emprenhado uma empregada que andara lá pela propriedade durante uns tempos e que Conceição assumira o filho como seu para não criar problemas, a rapariga era muito jovem e não tinha família. O desaparecimento súbito da moça, de um momento para o outro deixou de ir fazer as compras na mercearia da aldeia, era ela que tratava de aviar o monte, ainda enrijou ainda mais o dito popular.
Não bastasse o alarido todo por causa da pedrada na cabeça de Cilinha, e novo alvoroço surgiu, os coelhos que tinham ficado esquecidos a um canto, nos sacos dentro das alcofas, cansados de estar naquele espaço apertado, conseguiram sair e resolveram espalhar-se pela casa toda. Só mesmo o grito de uma das filhas, por medo de ter visto uma ratazana gigante a passar, deu conta do sucedido. Foi preciso algum tempo para que os bichos voltassem a estar em local seguro, o último foi mesmo apanhado debaixo de uma cama, só por sorte não entornara um bacio que tinha ficado esquecido de despejar na estrumeira atrás do casario. Estava José Bernardo a passar revista ao celeiro, não se tivesse algum escapado para ali, já que a porta do fundo, que ligava a casa àquele espaço onde guardavam algumas farinhas para os animais, estava aberta, quando sentiu que alguém entrara, voltou-se e viu, por detrás dos sacos, Adelina, a noiva que ia casar no domingo seguinte.
- Há muito que não te punha a vista em cima, o que é feito de ti? – perguntou ela.
- Tenho andado por aí – José Bernardo respondeu sem voltar a cara, continuou a sua procura dos coelhos, tinha quase a certeza que já estavam todos encontrados, afinal uma dúzia eram doze e era este o número de animais que tinha sido recolhido, mas ainda assim restava-lhe uma dúvida se a avó não teria posto um a mais do que a encomenda, como oferta aos noivos, ela tinha dito qualquer coisa sobre isso, mas ele não prestara grande atenção, maldita cabeça que está sempre na lua.
- Ouvi dizer que não andas por bons caminhos.
- Não ligues ao que dizem.
- Não ligo, até porque os meus também não são grande coisa – e soltou aquela gargalhada alta e irritante que era costume em Adelina, a qual José Bernardo conhecia muito bem, tinham sido colegas de escola desde a primeira classe.
Ele não respondeu, mas por dentro concordou, aquela rapariga nunca tinha batido bem de cabeça, ainda lhe vinha à memória, andavam eles na sexta classe, o dia, em que ela o convenceu, conjuntamente com 2 colegas, a se meterem debaixo do pontão que havia por detrás da escola para baixarem as cuecas e mostrarem o que tinham por debaixo delas, pela primeira vez viu o sexo de uma mulher, ainda que muito moça, e quase o tocava, ela permitiu que na brincadeira pudesse haver algum contacto, mas o maldito cão da professora apareceu por ali a farejar, o que trouxe de seguido o próprio filho da mestra, que o procurava, e acabou com tudo, calções para cima e saia para baixo antes que viesse mais alguém e os visse naqueles preparo. Não foi preciso vir, bastaram alguns minutos e a escola inteira já sabia do acontecimento, aquele miúdo sempre fora um queixinhas, mal saiu, correu aos gritos até à sala da mãe a dizer que a Adelina estava a fazer coisas feias com uns rapazes. A professora Gertrudes quase que tive um colapso, não propriamente com a notícia, mas, sim, depois, com a valente sova à reguada que deu nos quatros protagonistas, em frente a toda à classe, José Bernardo só se lembrava de a ver assim, possuída por uma fúria avassaladora, em que as suas carnes gordas tremiam todas ao som das fortes pancadas, numa outra manhã, andava ele na terceira classe, em que, com medo de pedirem mais tinta para o tinteiro, ela fazia sempre um alarido imenso com os gastos de material, resolveram urinar para os mesmos, aproveitando uma ida da mestra à casa de banho, e foram apanhados, ela voltara para trás porque se esquecera de algo. Mas a vergonha foi diferente, enquanto no dia dos tinteiros, depois de passado o amargo da pancadaria, foi uma risota com a traquinice que tinham feito, naquele episódio do pontão o silêncio da mão pesada do pai de José Bernardo, chamado à escola, foi forte, mesmo assim, não tanto como o cinto de José Ramiro que deslizou sobre o corpo de Adelina desde o portão da escola até à porta de casa do Monte das Gralhas, criando feridas de vergonha que demoraram meses a sarar.
Adelina não se incomodou muito com a falta de conversa do seu antigo colega, permaneceu no celeiro e ajudou-o a procurar o coelho que poderia andar por ali, sempre bem junta a ele, justificou-se com o medo dos ratos. José Bernardo tentava não dar importância àquele corpo de mulher roliço quase enfiar-se por debaixo dos seus braços, pôde, inclusive, sentir os cabelos dela roçar-lhe o queixo, ela sempre fora atrevida, nos bailes da casa do povo os rapazes faziam fila para a tirar para dançar pois, ao contrário das outras raparigas, não impunha uma certa distância e permitia que, num movimento mais atrevido, se pudesse roçar nela, mas agora estava a ser demais, em véspera de casar oferecia-lhe o corpo no meio dos sacos de farinha. Antes que ele se afastasse ou dissesse algo, Adelina virou-se, espetou o seu peito na barriga dele e meteu-lhe a mão por entre as calças.
- Adelina, ganha juízo, estás prestes a casar – tentou José Bernardo dissuadi-la daquela brincadeira, já não eram crianças e aquilo podia acabar mal, imagine-se se entrava alguém, mas ela ignorou o seu pedido e ainda foi mais atrevida, agarrou-lhe na mão e colocou-a entre as suas pernas quentes, por debaixo da saia.
- Deixa-te de conversa, mexe naquilo que não acabaste um dia e esquece a merda do casamento. Já estou prenha e tudo, nem há problema.
Mas para José Bernardo havia problema, a qualquer momento podia aparecer alguém e ainda por cima, se a haver mulher naquela casa que ele desejasse não seria aquela, Cilinha tinha-o encantado e queria aproximar-se para ver se havia hipóteses de namoro. Atirar Adelina energicamente para cima dos sacos foi a única solução, libertou-se daquela tentação e saiu do celeiro de imediato, por certo eram mesmo só doze coelhos, não havia que procurar mais.
- Frouxo! – ouviu ainda Adelina gritar, mas ele seguiu em frente, tinha que sair o mais depressa dali, na pressa nem ouviu dona Conceição a chamá-lo para lhe pagar os animais, só à porta o pararam.
- Ouve lá, o que é que andas a fazer? – perguntou-lhe José Ramiro, na sua voz arrastada, sentado num poial da porta, ao sair, o que lhe provocou um certo embaraço, será que ele teria visto alguma coisa?, uma única tarde naquele monte e já tinha duas coisas para esconder, a pedrada e o amarfanho no celeiro. – Ouvi dizer que andas meio perdido desde que a rapariga te largou e a outra cadela te enxotou.
- Cá me arranjo, uns dias melhor outros pior – José Bernardo tentou cortar a conversa para ir montar a mula, que o esperava atada à porta da vacaria.
- Olha, eu preciso de um homem a sério aqui no monte, estou a ficar velho, o gaiato ainda é muito novo e o mulherio não serve.
Não precisou muito para o convencer, era tempo de começar um novo rumo, e a partida podia estar mesmo ali, isto de andar por aí ao deus dará não é coisa para um homem aguentar a vida inteira, tanto mais que agora havia uma voz melodiosa que o fazia imaginar dias melhores. Sem regatear jorna ou lidas, José Bernardo aceitou a proposta e acertou que na segunda-feira seguinte estava no monte para arregaçar os braços.
- Aparece no domingo, aí na boda, sempre bebes um copo.
Voltou o pôr o fato que lhe destinaram para o seu próprio casamento, e na hora marcada juntou-se ao cortejo na igreja. Uns olhares trocados e uns sorrisos contidos foram o suficiente para que tivesse a certeza que o namoro com Cecília tinha pernas para andar, nesse mesmo dia, na festa da boda, foi um dançar contínuo toda a noite, o que motivou logo falatório dos presentes e a irritação disfarçada da noiva, não era pela mão da mana que queria ver aquele homem entrar em casa.
Poucos dias passaram e o namoro já era oficial, José Bernardo estava autorizado a ir todo os domingos à janela por detrás do monte empoleirar-se em cima de uma pedra, o parapeito era alto, para conversar de coisas bonitas com Cilinha e poder mexer na suas mãos, que o gradeamento que protegia a abertura não dava para muito mais, apenas um beijo roubado, rápido, se ninguém tivesse a ver, e com muito cuidado, não fosse acontecer o que ocorrera na primeira vez em que o tentou fazer, um caso que poderia ter sido bem complicado, ele, no fogo de a poder beijar, entrou com a cabeça pelas grades adentro mas, depois de cumprido o desejo, não a conseguiu tirar, por mais que rodasse parecia que aquela parte do corpo tinha crescido, a situação ainda veio a piorar quando o apoio que lhe sustentava os pés resvalou e ficou completamente suspenso. Valeu-lhe a sua boa condição física para se agarrar às grades, evitando um certo enforcamento, e a força de Cecília que o empurrava, aflita para não ser apanhada naquele embaraço. Quando no dia seguinte lhe perguntaram o que lhe acontecera às orelhas, que ostentavam umas feridas de tanto terem raspado nos ferros do gradeamento, ele lá se desculpou que caíra da mula.
A notícia do namoro depressa se espalhou, José Ramiro fez questão que soubesse bem do novo pretendente da família, não só para mostrar que as suas filhas não estavam encalhadas, a mais velha já tinha 27 anos e não havia quem lhe pegasse, de todas só Adelina conseguira casamento e mesmo assim o povo comentava que tinha sido arranjo à pressa, o rapaz era meio tonto e nunca fora visto a cortejar quanto mais aparecer como noivo, mas também para que Amélia tivesse conhecimento que o seu querido afilhado ia constituir vida dentro da família que ela tinha renegado. Sedento de vingança, desconhecia o tamanho da tempestade que os seus ventos semearam.
- Dr. Covas, quero que trate de aplicar o que está escrito e lavrado em lei há muito tempo e que eu, na minha imensa bondade, nunca fiz valer. Finalmente o Monte das Gralhas vem para mim por direito. Deixei-os por lá por pena, por serem da família, mas eles não olharam a meios para me atingir, agora sofrem as consequências, paciência tem limites. Já agora, numa próxima vinda à quinta traga também o escrivão para redigirmos de novo o meu testamento, está na hora de tirar das sortes da minha vida aquele maldito e mal agradecido rapaz.
As palavras de Amélia, enérgicas e dramáticas como sempre, foram ditas ao advogado, chamado à Quinta da Ponte de urgência, no próprio dia em que tomou conhecimento do novo namoro do afilhado, havia que tomar medidas, não podia esperar que aparecesse sempre um bando de corvos para cumprir os seus desígnios, desta vez tinha que ser ela mesmo a bater as asas para que a ira das suas ordens sobrevoasse o Monte das Gralhas e cobrisse de negro o seu destino.