Não há memória que Vila Maria alguma vez tivesse tido propriamente o estatuto de vila, nunca passou de uma mera aldeia, mas também nunca ninguém se preocupou com isso, era apenas uma designação, mais importante, sim, era a origem do nome de mulher que carregava na sua denominação, uma vez que havia duas histórias lendárias que perpetuavam, simultaneamente, a génese daquela pequena praça com uma rua principal, espinhada com várias ruelas adjacentes, numa planura alentejana de olivais e searas junto à fronteira.
A primeira, vinha dos tempos das guerras com os espanhóis, constava que um rei, nunca ninguém se preocupou em saber qual, a caminho de Espanha, para um encontro militar secreto, também nunca ninguém aprofundou os detalhes do segredo, resolveu parar numa taberna à beira da estrada, um casebre esquecido na poeirada dos caminhos da época, para que fosse dado de beber às bestas da comitiva, e aí perdeu-se de encantos com a mulher do taberneiro, que naquele dia, como todos os outros, penteava os seus longos cabelos escuros debaixo de uma oliveira por detrás do casario. Não tardou mais de meia hora e o todo soberano já rebolava nos lençóis encardidos do quarto, bem ao lado balcão onde o marido servia vinho e pão com azeitonas à restante companhia que soltava altas gargalhadas para abafar os sonantes suspiros monárquicos. Lá para os lados do palácio real não devia haver concubina assim, mesmo sem concertações hispânicas, o certo, é que o sua alteza real voltou várias vezes para se amigar com aquela estranha mulher de cabelos lavados e pele suja, que se mexia na cama como uma serpente com cio, como se tal houvesse, enquanto mandava o marido pastar o gado para bem longe.
Tal foram as aptidões nas artes da lascívia que, além do rei, outros importantes começaram a passar por ali para conhecer os bons ofícios de Maria, sua graça, o que, mesmo em tempos distantes de capitalismo, gerou oportunidades de negócio e, ao contrário do que normalmente acontece quando a má fama se espalha, alguma concentração de casario. Ninguém conseguia atestar esta história, nem mesmo o mais esperto dos doutores, a não ser a memória da língua dos habitantes, mas o certo, é que ela, ainda hoje, é apontada, por muitos, como a verdadeira origem do lugarejo e do nome que sempre carregaram. Mas o peso da denominação feminina não se tornou coisa fácil ao longo do tempo, o nome da virgem recebeu por ali significação pouca virtuosa e, contrariamente ao que acontecia em qualquer parte, em Vila Maria a maioria das mulheres não o recebia no baptismo, aliás, dito entre dentes, era tido como um insulto a lembrar as actividades especialistas da meretriz mais conhecida na região.

A segunda história, sendo tão lendária quanto a primeira, tinha, no entanto, outros contornos, muitos afiançavam que só aparecera para limpar o nome da mãe do salvador, havia mesmo quem afirmasse que só tinha surgido no princípio do século, inventada por um conjunto de beatas na catequese que, cansadas de ouvir o nome da virgem ser proferido com todas as malícias, adjectivar alguém de Maria na terra levava, por vezes, a zaragata, tal o insulto, resolveram dar um novo primórdio ao nome de baptismo do lugar. Dizia então, a nova versão, que numa guerra com os espanhóis, quase todas as historietas contadas envolviam gentes do outro lado da fronteira, foi travada uma valente batalha na região, tão forte que as águas das ribeiras ficaram tingidas de vermelho como se, de repente, uma praga bíblica se tivesse abatido por ali, e que um cavaleiro português, ao saber de um plano de ataque do inimigo, espiara-o durante toda a noite, correu, montado num cavalo, em direcção ao seu exército para o avisar de semelhante estratégia, que a chegar tarde seria a perdição total. No caminho avassalador não contou que uma serpente se atravessasse mesmo à frente da patada da sua montada e que esta, perante o tamanho colossal do réptil, coisa nunca vista nas redondezas, se empinasse quase até ao céu e o atirasse contras a rochas estacionadas na beira da estrada.
Ferido e sem forças, ali ficou estendido durante horas, mais do que o frio da terra, que se arreigava em todos os cantos dos ossos, e do sangue que lhe fugia pelas fendas do corpo abertas na queda, era o sentir que a alvorada ameaçava despertar e que os seus companheiros de armas, ao não serem avisados, iriam ser apanhados na cilada hedionda, bem preparada por aqueles que, até ao momento, estavam a perder a batalha. Como uma criança, perdida dos pais em sonhos, chorou na noite, um carpido a enunciar as mortes todas que iam nascer quando a própria madrugada brotasse, mas, tal como o pranto de menino, acabou por, no meio dos soluços, soltar palavras de ajuda, um colo a pedir à madre mais poderosa que o amparasse para que ele próprio pudesse proteger outros filhos de suas mães. Foi alta a sua prece, uma luz surgiu no breu da noite e trouxe até ele, não só a força perdida, como o cavalo tresmalhado que quase se ajoelhou para que o cavaleiro o pudesse montar. No entanto, somente umas asas podiam compensar o avançar do tempo, o acampamento ainda estava longe e os espanhóis já estavam a caminho, dificilmente chegaria a tempo. Não se sabe como, mas a tal luz, onde o oficial de diligências viu a cara doce da virgem Maria, iluminou um caminho secreto, criado pelos próprios céus, tão curto que ainda antes de qualquer galo ter cantado, já toda a praça militar estava levantada e preparada para receber os castelhanos pelo lado contrário.

Os portugueses ganharam a batalha. Ninguém sabia muito bem que contenda militar estava em causa, nem em que época fora, mas o certo é que muitos acabaram por acreditar nesta versão da sua origem, sempre é melhor sermos abençoados pela santa do que ser filho da puta, e chegaram mesmo a erigir um pequeno padrão logo à entrada da Vila, onde supostamente se deu a aparição. Embalados pelo sucesso romeiro de Fátima, ainda resolveram pedir ao bispo que avaliasse o local como sítio santo, mas o homem foi de pouca fé e, através de um secretariado, pediu apenas que lhe trouxessem relatos de milagres para que, assim, fosse tomada em consideração a possível aparição da mãe de todos em cima de um rochedo. Ao que consta, os milagres rarearam e o assunto foi esquecido.
Pouco ligado às lendas da terra, nem mesmo a praga anunciada dos corvos, que desfizera numa tarde as ilusões amorosas duma vida, lhe deu maior fé, José Bernardo andou perdido durante uns tempos, primeiro ainda insistiu com Belinha para que o casamento fosse de novo tomado logo após o luto, mas desde que um dia vira nos olhos dela a febre do ódio a derramar veias, depressa desistira da ideia, o seu caminho já não entroncava naquela porta e havia outras veredas para trilhar, o problema era saber quais. Na tentativa de encontrar novo mapa da afeição, fez o que qualquer homem fazia quando queria curar a dor dos males de amor, procurou a quentura dos copos e dos corpos para melhor se orientar. Entre noitadas na taberna, até o Ti Jerónimo o pôr para fora, e as tardes enrolado com a dama da rua florida, aquelas juras de amor sussurradas ao sabor dinheiro sabiam-lha a mais pura das verdades, gastava os seus dias.
- Estás a ficar um fraco, e um homem não se quer fraco, macho fraco morre depressa, ainda que possa andar por aí – disse Maria Bernarda, avó materna de José Bernardo, quando ele um dia a foi visitar a seu pedido. Mulher vinda de outras paragens, de terras perto do mar, depressa conquistou as gentes de Vila Maria com a sua forma especial de encarar a vida, pouca dada a lamentações e com energia para levantar uma existência do chão, conseguira criar os cincos filhos sem ajuda do marido, que ficara acamado até ao fim dos seus dias, após uma parelha de coices da mula raivosa comprada a um cigano na feira. Mesmo no enfraquecer dos seus setenta e dois anos, ainda tratava das suas galinhas poedeiras e colhia erva para os coelhos que vendia para o mercado da cidade, se a moléstia não lhe pegasse, criando, assim, um pequeno sustento para que nem filhos nem netos se preocupassem em aliviar a pobreza da sua velhice. Mas o que a tornou afamada foi a sua capacidade para pôr um assunto em pratos limpos sem problema de espécie alguma, afirmava mesmo que não era nenhum baú para guardar segredo de quem quer que fosse, então vocês não aguentam com ele e eu é que vou ficar calada, dizia ela sempre que alguém lhe pedia para não contar nada a ninguém, se é para não dizer então fique vossemecê entupida com ele, que cá eu não faço de alçapão de vossemecês. Perante esta determinação, era uma romaria de vizinhas à sua porta, umas para porem a circular algo que andavam a dizer baixinho ou que tinham entalado na língua há muito, outras para irem buscar as novas que precisavam de soar alto, não sou eu que digo, é a velha Bernarda.
José Bernardo encolheu os ombros como resposta ao comentário da avó, ela tinha razão, devia ter, tinha sempre, mas sabia-lhe bem aquela fraqueza miudinha, de não decidir nada, de se deixar engolir pelo cantar das horas, dia após dia, como os gatos que andavam por ali, a preguiçar o sol e o borralho da noite. Voltar à Quinta da Ponte estava fora de questão, a madrinha já tinha mandado vários recados, mas ele fizera-se mouco de orgulho e nada respondera, nem sequer uma contra mensagem devolveu, queria esquecer o tempo que ali tinha queimado e encontrar novos rumos, ainda que a pujança para os procurar tivesse ficado fechada como ficou toda a afeição do seu querer.
- Zé, tens que te fazer à vida, ela não pára muito tempo no apeadeiro e quando dás por ti já lá vai longe – continuou a avó Bernarda a sua filosofia de responso, na tentativa que o seu neto mais querido lhe desse ouvidos e largasse aquele ar de cão sem dono.
- Eu sei, mas não me conformo, é muito azar para uma pessoa só, perdi tudo.
- Mas que azar Zé? Sempre tiveste tudo e ainda podes ter outra vez, basta quereres. Engole o orgulho e volta para a maldita velha, faz-lhe novas festas e, mais dia menos dia, és dono de tudo aquilo.
- E a Belinha?
- Esquece-a, se ela realmente te quisesse estava aí ao teu lado, tu não vês que o maior querer dela era o que tu valias para a velha, nada mais, ao ver que não a podia vencer desistiu de ti, como quem larga carga de mula cansada em caminho empinado.
- A avó acha mesmo que devo voltar para a madrinha e fazer de conta que não aconteceu nada?
- Essa é maneira mais fácil de resolveres as coisas, mas não a melhor, antes de qualquer abastança está a endireitança de um homem. Tens bons braços e boa cabeça, levanta-te dessa modorra e faz-te à vida por ti mesmo, não falta por aí quem te queira.
Se sobre o querer das raparigas a avó tinha razão, a sua boa figura e o facto de ser o menino querido da mulher mais poderosa da região fazia com que fosse pretendido por tudo o que era mulher casadoira, no entanto, no que respeitava a trabalho, não era bem verdade que o pretendessem em parte alguma, sempre de volta da madrinha, José Bernardo não aprendeu grandes artes da lavoura nem de quaisquer outras ofícios, até mesmo nas sortes, a velha inspecção militar, tinha ficado mal, mais uma vez a protectora tinha movido influências, nessa ocasião junto a um capitão de cavalaria, para que o seu querido menino ficasse livre das agruras militares e, assim, continuasse disponível no seu labor de escudeiro de vontades. A consciência que sendo homem feito pouco mais sabia fazer do que conduzir a madrinha à cidade e fazer vistorias no grande casario para ver que obras precisava, levava a que não ganhasse vontade para enfrentar de novo o mundo.
- Anda, ajuda-me a esfolar uns coelhos para entregar no Monte das Gralhas, parece que lhes deu lá a moléstia e precisam de uma dúzia deles para a boda da Adelina.

O sol já quente de Maio fez pôr de lado a ideia da matança dos animais, o melhor era mesmo metê-los numa alcofa e entregá-los vivos, eles que os matassem quando quisessem, senão ainda azedava a carne e boda acabava todo de molho, a rebolar na cama com dores e cheiros pouco agradáveis, como a da filha da comadre Rosália que, graças a uns ovos estragados, as galinhas dela nunca foram grande coisa, espalhou os convidados todos pelos campos adjacentes à festa do copo-de-água com as calças nas mãos, até noiva passou a noite a entregar o seu corpo, reservadamente casto, a um grande balde de alumínio.
José Bernardo preparou a mula e resolveu, ele mesmo, ir entregar os bichos ao monte, precisava de desassombrar as ideias e os campos naquela altura, com o perfume e as corres garridas dos mantos florais, criavam alento novo a almas mortiças. Ainda há pouco tempo todos os percursos que fazia eram no bonito Chevrolet De Luxe Sedan preto da madrinha que, quando chegou à aldeia nos finais dos anos 50, fazia as pessoas sair de casa para o ver passar, e agora, para não ir a pé, tinha que albardar o velho animal que, mesmo sem a carroça que puxara durante uma vida, arrastava já as patas. O contentamento de respirar aquele ar colorido de primavera em força, como se tivesse estado fechado num casarão de uma cidade e o sabor da terra fosse apenas lembrança de meninice, fê-lo assobiar uma melodia alegre, uma canção que nem o nome sabia mas que ouvira algumas vezes na Emissora Nacional no programa Serão para trabalhadores. A falta de melhor memória fazia com que o sibilo não passasse do principal estribilho, a única parte que lhe tinha ficado na mente, ainda fez algum esforço para se tentar recordar da restante melodia, coisa que não conseguiu, um outro canto mais harmonioso interrompeu-o, uma bela voz feminina, por ali perto, trinava um fado sobre um amor desgraçado.
Até a própria mula deve ter ficado fascinada com semelhante cantar, empancou definitivamente no caminho estreito de terra batida e nem umas vergastadas mais fortes no lombo a demoveu, parecia escutar atentamente a forma melodiosa como as palavras da música eram soltas no ar. José Bernardo desmontou a besta e bem tentou puxá-la, nem que fosse para percorrer apenas o resto do caminho a pé, o monte estava perto, ali mesmo no cimo do olival que vinha até à estrada, mas foi em vão, nem sequer o mais leve movimento das patas da besta se vislumbrou. Apesar de tudo não se sentiu agastado com a contrariedade, ele próprio acabou por ficar cativado com o embalar de semelhante canto, como se fosse um chilrear especial da passarada que naquela época invadia os campos, e, para matar a curiosidade da autoria, aproximou-se da ribanceira, delimitada por um pequeno muro de pedras, que separava a estrada do terreno da parte debaixo, a horta do monte. Ao fundo, pôde, então, verificar que uma rapariga, enquanto esfregava com força uma peça de roupa no ladrilho do tanque envolto por um extenso laranjal, cantava, entregue a si própria, uma melodia sobre os desenganos do amor. Era a Cilinha, a filha mais nova do dono do Monte das Gralhas. Olhou para ela e viu que estava uma bonita moça, bem ao contrário daquela menina ranhosa e definhada que chegou à escola quando ele já estava a sair. Na altura, a completar a sexta classe, um quase homem a romper os poros, não olhou muito para ela, apenas lhe ficara na ideia a imagem de uma miúda pequena com um ar muito doente e com a qual todos se metiam, para puxar as suas longas tranças, mas agora parecia-lhe bem diferente, estava uma mulher de busto saliente e de pernas carnudas, bonitas apesar de alguma brancura de inverno que se enxergava sempre que ela se debruçava sobre o ladrilho para esfregar melhor o encardido da fronha. Gostou do que viu, e se os ares daquela primavera estendida pelos campos o tinham feito respirar melhor o dia, aquela nova paisagem de uma moça entregue a lavagens e cantorias ainda o acalentou mais, tanto que lhe apeteceu meter conversa para ficar por ali uns momentos numa cavaqueira soalheira ao sabor das laranjeiras que, em flor, já espalhavam um cheiro agradável por todo o lado.

Para criar assunto resolveu fazer uma pequena brincadeira, atirar subtilmente uma pedra sobre a água do tanque e desta forma criar uma pequena diversão para que Cilinha soltasse um ai de susto e, qual casta donzela, ruborizasse quando o visse e lhe chamasse de maroto. Sem fazer muito ruído, felizmente que a mula continuava empancada como uma estátua, procurou uma pequena pedra para fazer o seu tiro, mas na altura da escolha achou que uma maior fazia mais efeito no cair das águas e provocaria, assim, um sobressalto mais sonante, ideia que o levou a apanhar um calhau do tamanho da palma da mão. O espavento criado acabou por não ser propriamente a queda do objecto voador sobre o leito do tanque mas, sim, o grito de dor que Cilinha soltou, por força da fraca pontaria de José Bernardo, ao receber na sua cabeça a pedra robusta tão carinhosamente escolhida.
Foi com a cara dela num banho de sangue que chegaram os dois ao monte, o que provocou um alarido nunca visto, Dona Conceição e as restantes quatro filhas saíram em alvoroço ao seu encontro, quem teria tentado matar a sua bela menina?, só podia ter sido obra dos ciganos, que andavam a rondar o monte há algum tempo a tentar apanhar alguns animais mais soltos nos campos, felizmente que o Zé tinha passado e a socorreu. No entanto, aquilo que parecia ser uma tragédia imensa, afinal, não passava de uma pequena ferida na testa que, depois de lavada e tapada com um pequeno lenço a fazer de ligadura, depressa estancou e deu um outro ar àquela cara que ainda há pouco tempo se iludia como uma chaga total.
Já os ânimos estavam mais calmos, quando José Ramiro entrou na sala, soturno e silencioso, como sempre. O mulherio envolvia, na altura, José Bernardo e Cecília para tentar obter explicações sobre os acontecimentos, como tinha aparecido do céu uma pedra a voar, obra de Deus não era, só podia ser mesmo do diabo ainda que em forma de gente, e de gente sem eira nem beira, que quando apareciam só traziam problemas, se calhar o melhor era chamar a guarda para os pôr dali para fora.
- A culpa é da cadela da tua prima, que os deixa acampar no terreiro – disse José Ramiro para Dona Conceição, naquilo que foram as primeiras e as suas únicas palavras. Mesmo sem perceber muito bem o que se estava a passar, e no meio de um hálito a vinho, sabor constante no seu dia-a-dia, não deixou de culpar a parente da mulher por aquele acontecimento, desde os tempos de juventude que Amélia simbolizava todos os males que lhe desabaram em cima.

Conceição fez que não ouviu, já sabia que qualquer resposta sua, por muito boa que fosse, teria apenas como palavra de réplica o som do peso das mãos dele, maldito homem aquele que só lhe dera amargura, melhor seria ter caído morta no dia em que o seu coração parou ao ser roubado de amores por um jovem ceifeiro do norte que descera ao Alentejo apenas para fazer a campanha de Verão da ceifa, a prima bem a avisou, que ele era um interesseiro e que só lhe ia trazer desgraça, aliás a nenhum lhe assentava tão bem o nome de ratinho, alcunha pela qual eram conhecidos os trabalhadores agrícolas que desciam a sul à procura de faina temporária, com falinhas mansas levou-a no encanto mas depois roeu-lhe tudo, até a alma mais profunda. Se arrependimento matasse servia-o, por certo, todos os dias, de mansinho, em copos bem grandes de vinho, como ele gostava, até que aquela sombra de homem caísse redonda no chão e lhe devolvesse a serenidade necessária para o resto do pouco tempo que ainda tinha para corroer.