A Fúria de Deus

Deus está em toda a parte. Deus sabe tudo. Então, se num acto de fúria, e farto desta pouca-vergonha da sua criação, ELE quebrasse o seu eterno silêncio e resolvesse, um dia, dar com a línguas nos dentes, contando tudo o que sabe? E se, em lugar de fazer ecoar o seu recado com altos trovões, escolhesse as novas tecnologias para passar a Sua Palavra, a Sua Fúria?

- Drª Ana, já viu isto?

Ana Figueiredo, inspectora-chefe da Policia Judiciária, levantou ligeiramente os olhos dos papéis que analisava, meticulosamente espalhados na sua secretária, como que a fazerem um jogo harmonioso com todos os restantes pequenos objectos à sua volta, também arrumados e colocados de uma forma minuciosa, numa espécie de exposição cuidada que se prepara para uma fotografia que pretende ilustrar o empenho profissional de uma alta figura numa revista de moda, e que poderia ter como legenda, Ana, uma inspectora de alto nível, a estudar mais um dos seus difíceis casos.

- Pois não? – apenas por uma questão de educação Ana mostrou algum interesse na questão.

- Este blogue aqui na internet – insistiu Miguel Pinho, um inspector pós-estagiário, companheiro de gabinete e de equipa.

- O que tem?

- Chama-se A Fúria de Deus e diz que ele vai dar com a língua nos dentes. Escute, por favor! – Miguel releu em voz alta o descritivo do blogue, enquanto Ana fingiu escutar. – Mas há mais, ouça o que ele diz no seu primeiro post.

Como mensagem divina, não esperem aqui boatos e o diz que disse, o eterno conteúdo da maioria dos blogues. ELE tem mais que fazer do que se armar em e-porteira. O que vão ver aqui são factos que importam conhecer, com todos os detalhes. Repor a verdade a que todos têm direito. Pior do que os actos contra ELE e contra a sua criação, é a mentira que insistem em contar, é a verdade que teimam em ocultar. Dentro em breve o primeiro caso irá surgir. A partir daqui nada será como dantes, o segredo deixou de o ser. O Mensageiro.

- Isto está demais! – comentou Miguel, continuando com os olhos postos no ecrã.

- Se quer que lhe diga, não percebi nada – comentou Ana, enquanto tentou voltar aos seus papéis, já não lhe bastava aquele labirinto de dados para analisar, agora ainda tinha que ouvir mais aquelas patranhas de gente deserdada da vida que tenta consolar os seus dias infelizes em desabafos electrónicos.

- Não percebeu ou não ouviu?

- Sabe que eu não estou muito por dentro dessa realidade dos blogues. O que eu sei, é que as pessoas se aproveitam dessas coisas para dizerem o que lhes passa pela cabeça, sem responsabilidade nenhuma. De repente, parece que voltaram todos a um tempo de uma certa infantilidade, em que, quais crianças irresponsáveis, vão para o recreio dizer e fazer todos os disparates que lhe vêm à cabeça, como que para aliviar a compressão de terem estados fechados na sala de aula. O problema é que não têm um vigilante para lhe puxar as orelhas quando se portam mal e pisam as marcas da boa educação.

- É a liberdade pura, cara doutora. Antigamente só uns eleitos tinham acesso à comunicação, hoje qualquer um pode dizer e mostrar ao mundo aquilo que lhes vai na alma, inclusive até mostrar o seu talento escondido.

- O seu talento ou o seu resquício intelectual? A mim parece-me que, na maioria das vezes, apenas fazem exercícios de mediocridade disfarçados de liberdade de expressão. Por amor de Deus, não me vai dizer que em cada um desses que vive a vida a publicar coisas na internet, há um escritor, um poeta ou um jornalista talentoso que só a obscuridade doentia da oportunidade social ainda não lhe permitiu ver a luz do reconhecimento. Algumas das coisas que me foram dadas a conhecer não passam de meras expulsões de mediocridade, que ficariam, sim, muito bem guardadas eternamente na intimidade dos seus pensamentos.

- Não é bem assim, anda por aí muita coisa com bastante qualidade. Claro que no meio, se calhar a maioria, há muito joio, mas não nos podemos esquecer do bom trigo desta nova seara electrónica. Além dos mais, são eles que trazem a lume coisas novas. Já viu? Este promete revelar grandes segredos. Se fizer o que diz, vai ser lindo, ai vai, vai!

- Mas ele, afinal, vai revelar mesmo o quê? – perguntou Ana a tentar rematar aquele assunto, que além de não a interessar a estava interromper continuamente.

- Não sei. Para já é só uma promessa, vamos lá ver o que sai, agora a piada é que ele assina como Mensageiro de Deus. Não deixa de ser uma ideia engraçada, esta de Deus quebrar o seu eterno silêncio e dar com a língua nos dentes.

- Meu querido, deve ser mais uma situação de boataria na Internet. Não produz nada, e o Miguel sabe isso muito bem, mas provoca sempre estragos nas vítimas. É pena que depois não haja justiça, nem dos homens nem divina, para reparar os estilhaços dos boatos.

- Eu sei, mas confesso que este me deixou curioso, nem que seja pela originalidade. Esta de Deus interromper o seu longo silêncio para pôr a boca no trombone é algo que nem os filmes mais estúpidos se lembraram.

- Ouça, deixe que lhe digue uma coisa giríssima, o que seria mesmo estupendo era que ele revelasse algo sobre este caso da rapariguinha do shopping, pois como as coisas estão não vejo forma do processo andar.

Ana e Miguel tinham em mão um suposto de caso de corrupção e peculato de um autarca que foi baptizado na comunicação social como o da rapariguinha do shopping, por envolver a construção de um grande espaço comercial e a chave de tudo estar numa simples rapariga, empregada de um restaurante.

- Quer a minha opinião, Drª Ana? O caso não nem anda, nem irá andar. Suspeitas e mais suspeitas, mas provas nem uma em concreto. Ainda por cima a principal testemunha foi apanhar ares para Copacabana.

Ana agitou ligeiramente a cabeça, em jeito de concordância, e volta aos papéis, ele, apesar de tudo, tinha razão. A forma como toda situação foi orquestrada, bem como a condução da investigação inicial, dificilmente ira aportar um bom desfecho policial.

Miguel levantou-se em direcção à janela que devolvia uma luz brilhante de um bom dia de primavera.

- Lisboa tem uma luz única – refere Miguel, enquanto afastou umas persianas de linho cru, em estilo japonês, mais adequadas a um gabinete de uma revista de decoração do que propriamente a um espaço policial.

- Sim, Miguel! Mas com certeza não é com a vista horrível dessa janela.

Miguel sorriu, afinal um conjunto de andaimes de um eterno prédio em obras não era realmente uma boa paisagem, e aproximou-se da secretária de Ana.

- Está com pouca vontade, hoje – disse Ana, sem tirar os olhos dos papéis.

- Só hoje? – riu-se ele com a observação, apesar de não ter gostado da indirecta sobre a sua pouca apetência para o trabalho.

- Palavras suas, Miguel, eu não disse nada.

- Sabe, eu tenho um terrível defeito. Quando vejo que não consigo avançar numa coisa, perco a vontade e desisto. É terrível, mas sou assim.

Ana levanta-se repentinamente, ajeitou a sua saia-casaco de bom corte, e, como numa marcação teatral, colocou-se no centro da sala. Olhou Miguel seriamente.

- Então, meu caro, escolheu a profissão errada. A investigação criminal é uma luta constante contra um caminho que teima em estar quase sempre fechado e sobre o qual temos que abrir saídas. Mesmo assim, com pequenos passos por vezes conseguimos. Se gosta de acção, pneus a chiar irritantemente, então, meu querido, vá para realizador de filmes policiais, que aí sim tem esse ambiente.

- Oh Dr.ª Ana, acho que me interpretou mal. Apenas tento ser eficaz na afectação de recursos. Acha mesmo que o caso tem pernas para andar? O fulano foi reeleito, o shopping está quase construído e o grupo económico é intocável. Não há pistas de dinheiro a andar de um lado para o outro. Ainda por cima a brasileira, que começou a dizer alguma coisa, desapareceu.

- Se eu desistisse sempre que o cenário tivesse esses traços, já estava nos serviços administrativos há muito. Olhe, para contrariar esse seu pessimismo, vá lançando todos aqueles movimentos bancários num ficheiro, para depois os cruzamos, o menino tem mais jeito para essas coisas informáticas. Eu já volto.

Sem mais palavras, Ana saiu do gabinete. Miguel ficou a olhar para a porta, a pensar que aquela parceria não ia acabar bem. Não eram aqueles os seus sonhos para uma carreira na polícia criminal. Primeiro, foi colocado na área dos crimes económicos, cuja acção era directamente proporcional à sua resolução, nenhuma, depois, em lugar de ter um agente como assistente, para o livrar das tarefas menores, foi ele próprio, inspector de gabarito, para auxiliar de um inspector-chefe, apesar de oficialmente não ter esse estatuto. Tudo se complicava pelo facto de não ser um inspector-chefe qualquer, era Ana Figueiredo, uma prima-dona da investigação criminal, uma mulher que parecia mais adequada a figurar nas páginas de papel couché de revistas elitistas do social do que a saltar para dentro de um carro e arrancar a toda a velocidade, até porque esse tipo de acção, provavelmente, estragar-lhe-ia o escultural penteado.

Miguel olhou para os extractos bancários em cima da secretária da Ana, hesitou pegar neles, mas acabou por se decidir pela volta à sua navegação na internet. Abriu novamente o blogue A Fúria de Deus e olhou-o fixamente, como se o tivesse a decifrar, e, qual miúdo com uma história infantil, ficou a fantasiar com o tipo de denúncias que se iam soltar daquela janela electrónica.

Nota: Primeiro capitulo de um romance escrito em 2007 (a semelhança do titulo com outra obra é pura coincidência) e com publicações de rascunhos no Blogue com o mesmo nome e no Imagens Caída ( Aqui e Aqui)

A União faz a força

Unidos até que a morte os separe!

Assim fiz.

Comecei por comprar 2 jazigos em alas opostas do cemitério.

Agora, aguardo que ela não embirre com o alho com que salteei os cogumelos venenosos que, carinhosamente, lhe preparei.

Publicado originalmente na Antiga casa.

Cria Corvos (3) – Folheto sem fim

Conceição e Amélia eram as duas únicas filhas moças dos dois grandes lavradores da região, os irmãos Bento de Oliveira, donos de quase todas as propriedades em volta de Vila Maria e arredores. Essa abastança não era de estranhar, descendentes directos do Comandante Pedro Vaz de Oliveira, homem de grande influência na corte, que a medo das aragens republicanas, que começavam a soprar no raiar do século, decidiu largar os negócios do mar e mergulhar nos ofícios da terra, precisamente nas quintas e montes que entretanto tinha adquirido para as suas caçadas, eventos de grande importância na região pois algumas delas contavam com a presença de sua alteza real. Em voz baixa, como sempre acontecia quando se falava da vida dos poderosos, dizia-se que muitas das herdades nem compradas tinham sido, umas artimanhas nos registos e os limites das propriedades foram alargados e unidos até que a vista o permitiu.

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As duas primas, quase da mesma idade, a estudar no melhor colégio de Lisboa para raparigas, raramente saíam da capital para as terras do Alentejo porque o sol e o frio era muito agrestes para a tenra e delicada pele das meninas, mesmo quando acabaram os estudos possíveis para qualquer moça da época, com os pais já definitivamente instalados nas propriedades, ficaram a viver no pequeno palacete nas Janelas Verdes, um casarão que a tempestade da República não tinha devorado, com uma velha tia solteirona. Apenas no natal de 1914, não só para as resguardar de possíveis ventos de guerra que começavam a soprar, mas sobretudo para as afastar de dois revolucionários republicanos que as cortejavam simultaneamente, se instalaram na Quinta da Ponte e na Herdade das Gralhas, morada fixa de seus pais.

Nem o facto de se terem mudado dos ares da grande cidade para os do campo lhe alterou as rotinas diárias, ajuda nos labores de casa pela manhã, o pessoal se não for orientado na faz nenhum, bordados e piano pela tarde, felizmente que na região havia um velho professor para continuar as lições, continuaram a ser tarefas desempenhadas como se ainda vivessem no palacete. Mas se para Amélia a adaptação fora fácil, aquela paixão não era coisa para si, para Conceição a mudança trouxera-lhe uma tristeza profunda, mais do que as calçadas de Lisboa, o seu coração sentia o vazio do rapaz que fazia vigílias debaixo da janela de seu quarto. Já o seu pai pensava mandá-la de novo para a capital, os meses de cama, a que caíra, pareciam definhá-la, quando, subitamente, ganhou alento e novas cores, primeiro ainda pensaram que era do calor tórrido do Verão, que abrasava campos e corpos nos dias largos, mas depois suspeitaram que algo mais se estaria a passar, especialmente porque os passeios solitários, coisa estranha na época para uma rapariga solteira, a que se dedicava todos os finais de tarde, a deixavam com uma alegria cintilante no olhar. Só com o cair do estio e o soltar da língua dos locais, os pais puderam verificar que a sua querida filha andava perdida de amores por um trabalhador temporário que naquele ano tinha vindo fazer a época da ceifa. Com um sorriso rasgado e um ar atrevido, ele depressa conquistara o coração delicado, e ansioso de novos latejos, da mais formosa moça das redondezas com quem se cruzava todos os dias nos campos contíguos do monte.

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Antes que o escândalo desabasse sobre si, respiraram todos de alívio com o final da época de Verão, os ratinhos tinham regressado a terras do norte, e Conceição mais uma vez ia esquecer os arrebates românticos. Enganaram-se, o rapaz, por vontades amorosas ou de cobiça, resolveu ficar por perto, a trabalhar num pequeno monte que não era de ninguém da família dos Bento de Oliveira, e desta forma continuou o seu cerco de namoro. Com todos os cuidados, o par apaixonado conseguiu manter secreto o romance, nem à prima, confidente de todas as suas mágoas, Conceição contou, sabia que ela desaprovava tal amor, já lho tinha referido várias vezes, e que ia logo contar ao tio, o que era a mesma coisa que contar ao seu pai.

Quando um dia, ano e meio mais tarde, numa taberna de uma aldeia vizinha, os irmãos de Conceição escutaram uns risos sobre a família, que quase levou a briga de navalhas, é que perceberam como andavam todos enganados, o maldito aproveitador não tinha ido embora, pelo contrário, como caçador à espera da presa, manteve-se vigilante a montar a armadilha para atacar na hora certa. Ao chegarem ao monte, em galope acelerado, para avisar o pai e mandar a mana de imediato para Lisboa para purificar suas virtudes, verificaram que já era tarde para grandes decisões, Conceição, com 21 anos e julgando-se maior, tinha partido sem deixar rasto, apenas um bilhete à mãe a pedir perdão pelo que ia fazer mas a felicidade era um caminho que só pondo os pés nele é que se alcançava, e o dela começava ali, naquele momento, a ser calcorreado. Ainda chamaram todos os homens do monte, mais os da herdade do tio, e resolveram fazer uma batida pela região, como se à caça da raposa estivessem, mas foi em vão, o casal apaixonado sumira pelos trilhos esquecidos e nem o pó levantado deixara marcas para contar. Mário Bento de Oliveira amaldiçoou-os, nunca vão ver um grão de trigo desta terra, gritou ele à porta da casa grande do monte, perante todos os que tinham participado na busca e que regressavam sem notícias, a morte pela fome é o que os espera. Mas a morte veio de outra maneira, e não esperada, dez anos mais tarde, em 1926, ao ouvirem que Conceição vivia em Lisboa numa casa mal afamada, onde o homem que a desonrara a pusera a render nos vícios do prazer, os irmãos fizeram-se à estrada e foram até à grande cidade para lavar a honra e trazer o grão que ainda restava dela para casa, só que, quis o destino que naquele Maio houvesse pela capital grande alvoroço, e um não respeitar as ordem de um batalhão militar, que fazia parte do movimento que tomava o poder de então, fez com que fossem disparados vários tiros sobre eles, de certeza que eram mais uns anarcas republicanos, quiçá comunistas, atirando-os para o rol anónimo das vitimas daquele dia que a História haveria de marcar.

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Sem filhos homem, a terra já os tragara, e sem filha, o destino também a devorara, Mário Bento de Oliveira perdeu o rumo aos dias e foi desfazendo-se aos poucos, em gestos loucos de agonia. Perante o desnorte do marido, os negócios da lavoura morriam com a alma do dono, a mulher, uma senhora da finada corte que um casamento arranjado um dia a fez cair por aquelas terras perdidas, resolveu entregar ao cunhado a exploração de todas as propriedades, ficando apenas com o Monte das Gralhas para viver e ir enterrando lentamente o homem que se deitava na sua cama. A ameaça do que o marido, na sua alucinação perdida, andava a apostar as terras com qualquer estranho que lhe aparecia, fizera com que o cunhado a convencesse a ceder-lhe as propriedades de papel passado, com a promessa que um dia, se a filha voltasse, ele lhe devolvia tudo. Mas esse dia chegou e nada mudou, passados sete anos a filha voltou e apenas encontrou o Monte das Gralhas como seu, as terras que o seu olhar, em tempos, perdia de vista eram agora um pequeno horizonte que terminava logo lá em baixo a seguir ao laranjal da horta.

Mário já não a viu o regresso da sua menina, a loucura comeu-lhe ainda mais os dias tristes e numa tarde, corria o ano de 1932, foi encontrado caído, sem réstia de vida, debaixo do grande chaparro, onde costumava ficar desde o nascer até ao pôr-do-sol, agarrado ao tarro grande que sempre o acompanhava, referido por ele como o pote das libras de ouro que ganhara com a venda das terras. Não se sabe como a notícia chegara a Conceição, mas o certo, é que passado pouco tempo, apenas dois meses após a morte do pai, ela chegou ao Monte das Gralhas na companhia do homem que lhe traçara o destino. Com 37 anos perdera a graça e a leveza de menina fina, os cabelos dourados, outrora sedosos e bem penteados, eram, então, pardos e desalinhados, o corpo ganhara peso e disformidade, e a voz arrastava as palavras num som dorido. Até José Ramiro já não mostrava a boa figura que impressionara em tempos, conservava ainda o grande porte mas o seu trato já não seduzia, o seu rizo rasgado e cativante dera lugar a um ar carrancudo e de poucas falas. Apesar de tudo, a viúva recebeu-os de braços abertos, como se tivessem sido sempre íntimos da casa, e mandou preparar uma grande festa, para receber a filha pródiga, qual reincarnação bíblica. Chamou o cunhado da Quinta da Ponte, também viúvo, e os primos Amélia e Alberto para que se voltasse a criar a santa união da família.

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- Está na hora de virarmos o destino, quero que nos devolva tudo, a Sãozinha está aí de novo e agora é ela, com o marido, que devem tomar conta de tudo – pediu a viúva de Mário ao cunhado Afonso, num momento em que o afastou da mesa, cheia de fartas iguarias, para uma sala ao lado.

Obteve a concordância imediata do cunhado mas não o seu cumprimento. Quando, logo no início da semana, a charrete subiu ao Monte das Gralhas para irem todos à cidade, ao tabelião, desemaranhar os negócios, Amélia, ao subir ao quarto, encontrou a sua tia e madrinha, da qual herdara o nome, adormecida na cama de um dormir sem acordar. No dia seguinte foi enterrar Amélia madrinha e toda uma negociata sobre as propriedades à volta de Vila Maria. Desde então, só mesmo algumas vozes populares comentavam os possíveis arranjos que se fizeram em tempos, nomeadamente sempre que viam a Quinta da Ponte a prosperar e o Monte das Gralhas a definhar. Conceição e José Ramiro não chegaram a ser informados do que se passara, e até aceitaram alguma ajuda do tio para voltar a pôr a herdade em funcionamento, só mesmo com o falatório do tempo começaram a desconfiar que alguma coisa teria acontecidos na sua ausência para que toda a imensidão de propriedades ter sido reduzida àquele meio hectare de monte. Ganharam coragem e resolveram confrontar os parentes, mas não obtiveram resposta a não ser um azedume cortante que os levou a um silêncio que nem natais dava voz.

José Ramiro, desiludido com a fortuna que não lhe coubera em sorte, pouco interesse deu à sua nova condição de lavrador, preferiu antes a companhia do vinho para matar o tempo. Não se sabe se por essa cumplicidade alcoólica, ou se porque acreditou nos rumores da fantasia popular que por vezes se faziam ouvir, alma do velho Mário pairava naquelas paragens, o certo é que também cismou com o suposto pote das libras de ouro que o seu sogro, em tempos, teria enterrado perto do monte. A procura, a partir de uma certa altura, tornara-se uma obsessão e passava a maior parte dos seus dias a cavar locais que os seus sonhos ditavam. Na aldeia corria mesmo o boato que o espírito do velho Mário tinha vindo para o atormentar, a vingança que tardava, e o pôr tão louco quanto ele.

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O que Conceição fizera em Lisboa, ou em qualquer outro sítio onde teria estado, nunca se soube, chegou, instalou-se e, como cortara relações com a prima Amélia, não falava com ninguém. Primeiro sozinha, depois com a ajuda das filhas, cinco que vieram de seguida, levou em frente a pequena faina do Monte das Gralhas. Todos acharam estranho que uma mulher chegasse ali com 37 anos sem nenhum rebento e depois, de repente, desatasse a parir filhas de enfiada, havia mesmo quem dissesse que o buxo dela estava tão imundo com as porcarias que tinha feito em Lisboa, que foi preciso a pureza da terra para o limpar. Mas a mais misteriosa das gestações foi quando aos 52 anos teve mais um filho, desta vez varão, sem que praticamente ninguém desse conta, o que também não era difícil pois a sua clausura no monte era quase total. O povo comentava, como sempre, que José Ramiro devia ter emprenhado uma empregada que andara lá pela propriedade durante uns tempos e que Conceição assumira o filho como seu para não criar problemas, a rapariga era muito jovem e não tinha família. O desaparecimento súbito da moça, de um momento para o outro deixou de ir fazer as compras na mercearia da aldeia, era ela que tratava de aviar o monte, ainda enrijou ainda mais o dito popular.

Não bastasse o alarido todo por causa da pedrada na cabeça de Cilinha, e novo alvoroço surgiu, os coelhos que tinham ficado esquecidos a um canto, nos sacos dentro das alcofas, cansados de estar naquele espaço apertado, conseguiram sair e resolveram espalhar-se pela casa toda. Só mesmo o grito de uma das filhas, por medo de ter visto uma ratazana gigante a passar, deu conta do sucedido. Foi preciso algum tempo para que os bichos voltassem a estar em local seguro, o último foi mesmo apanhado debaixo de uma cama, só por sorte não entornara um bacio que tinha ficado esquecido de despejar na estrumeira atrás do casario. Estava José Bernardo a passar revista ao celeiro, não se tivesse algum escapado para ali, já que a porta do fundo, que ligava a casa àquele espaço onde guardavam algumas farinhas para os animais, estava aberta, quando sentiu que alguém entrara, voltou-se e viu, por detrás dos sacos, Adelina, a noiva que ia casar no domingo seguinte.

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- Há muito que não te punha a vista em cima, o que é feito de ti? – perguntou ela.

- Tenho andado por aí – José Bernardo respondeu sem voltar a cara, continuou a sua procura dos coelhos, tinha quase a certeza que já estavam todos encontrados, afinal uma dúzia eram doze e era este o número de animais que tinha sido recolhido, mas ainda assim restava-lhe uma dúvida se a avó não teria posto um a mais do que a encomenda, como oferta aos noivos, ela tinha dito qualquer coisa sobre isso, mas ele não prestara grande atenção, maldita cabeça que está sempre na lua.

- Ouvi dizer que não andas por bons caminhos.

- Não ligues ao que dizem.

- Não ligo, até porque os meus também não são grande coisa – e soltou aquela gargalhada alta e irritante que era costume em Adelina, a qual José Bernardo conhecia muito bem, tinham sido colegas de escola desde a primeira classe.

Ele não respondeu, mas por dentro concordou, aquela rapariga nunca tinha batido bem de cabeça, ainda lhe vinha à memória, andavam eles na sexta classe, o dia, em que ela o convenceu, conjuntamente com 2 colegas, a se meterem debaixo do pontão que havia por detrás da escola para baixarem as cuecas e mostrarem o que tinham por debaixo delas, pela primeira vez viu o sexo de uma mulher, ainda que muito moça, e quase o tocava, ela permitiu que na brincadeira pudesse haver algum contacto, mas o maldito cão da professora apareceu por ali a farejar, o que trouxe de seguido o próprio filho da mestra, que o procurava, e acabou com tudo, calções para cima e saia para baixo antes que viesse mais alguém e os visse naqueles preparo. Não foi preciso vir, bastaram alguns minutos e a escola inteira já sabia do acontecimento, aquele miúdo sempre fora um queixinhas, mal saiu, correu aos gritos até à sala da mãe a dizer que a Adelina estava a fazer coisas feias com uns rapazes. A professora Gertrudes quase que tive um colapso, não propriamente com a notícia, mas, sim, depois, com a valente sova à reguada que deu nos quatros protagonistas, em frente a toda à classe, José Bernardo só se lembrava de a ver assim, possuída por uma fúria avassaladora, em que as suas carnes gordas tremiam todas ao som das fortes pancadas, numa outra manhã, andava ele na terceira classe, em que, com medo de pedirem mais tinta para o tinteiro, ela fazia sempre um alarido imenso com os gastos de material, resolveram urinar para os mesmos, aproveitando uma ida da mestra à casa de banho, e foram apanhados, ela voltara para trás porque se esquecera de algo. Mas a vergonha foi diferente, enquanto no dia dos tinteiros, depois de passado o amargo da pancadaria, foi uma risota com a traquinice que tinham feito, naquele episódio do pontão o silêncio da mão pesada do pai de José Bernardo, chamado à escola, foi forte, mesmo assim, não tanto como o cinto de José Ramiro que deslizou sobre o corpo de Adelina desde o portão da escola até à porta de casa do Monte das Gralhas, criando feridas de vergonha que demoraram meses a sarar.

GARGANTA

Adelina não se incomodou muito com a falta de conversa do seu antigo colega, permaneceu no celeiro e ajudou-o a procurar o coelho que poderia andar por ali, sempre bem junta a ele, justificou-se com o medo dos ratos. José Bernardo tentava não dar importância àquele corpo de mulher roliço quase enfiar-se por debaixo dos seus braços, pôde, inclusive, sentir os cabelos dela roçar-lhe o queixo, ela sempre fora atrevida, nos bailes da casa do povo os rapazes faziam fila para a tirar para dançar pois, ao contrário das outras raparigas, não impunha uma certa distância e permitia que, num movimento mais atrevido, se pudesse roçar nela, mas agora estava a ser demais, em véspera de casar oferecia-lhe o corpo no meio dos sacos de farinha. Antes que ele se afastasse ou dissesse algo, Adelina virou-se, espetou o seu peito na barriga dele e meteu-lhe a mão por entre as calças.

- Adelina, ganha juízo, estás prestes a casar – tentou José Bernardo dissuadi-la daquela brincadeira, já não eram crianças e aquilo podia acabar mal, imagine-se se entrava alguém, mas ela ignorou o seu pedido e ainda foi mais atrevida, agarrou-lhe na mão e colocou-a entre as suas pernas quentes, por debaixo da saia.

- Deixa-te de conversa, mexe naquilo que não acabaste um dia e esquece a merda do casamento. Já estou prenha e tudo, nem há problema.

Mas para José Bernardo havia problema, a qualquer momento podia aparecer alguém e ainda por cima, se a haver mulher naquela casa que ele desejasse não seria aquela, Cilinha tinha-o encantado e queria aproximar-se para ver se havia hipóteses de namoro. Atirar Adelina energicamente para cima dos sacos foi a única solução, libertou-se daquela tentação e saiu do celeiro de imediato, por certo eram mesmo só doze coelhos, não havia que procurar mais.

- Frouxo! – ouviu ainda Adelina gritar, mas ele seguiu em frente, tinha que sair o mais depressa dali, na pressa nem ouviu dona Conceição a chamá-lo para lhe pagar os animais, só à porta o pararam.

- Ouve lá, o que é que andas a fazer? – perguntou-lhe José Ramiro, na sua voz arrastada, sentado num poial da porta, ao sair, o que lhe provocou um certo embaraço, será que ele teria visto alguma coisa?, uma única tarde naquele monte e já tinha duas coisas para esconder, a pedrada e o amarfanho no celeiro. – Ouvi dizer que andas meio perdido desde que a rapariga te largou e a outra cadela te enxotou.

- Cá me arranjo, uns dias melhor outros pior – José Bernardo tentou cortar a conversa para ir montar a mula, que o esperava atada à porta da vacaria.

- Olha, eu preciso de um homem a sério aqui no monte, estou a ficar velho, o gaiato ainda é muito novo e o mulherio não serve.

Não precisou muito para o convencer, era tempo de começar um novo rumo, e a partida podia estar mesmo ali, isto de andar por aí ao deus dará não é coisa para um homem aguentar a vida inteira, tanto mais que agora havia uma voz melodiosa que o fazia imaginar dias melhores. Sem regatear jorna ou lidas, José Bernardo aceitou a proposta e acertou que na segunda-feira seguinte estava no monte para arregaçar os braços.

- Aparece no domingo, aí na boda, sempre bebes um copo.

Voltou o pôr o fato que lhe destinaram para o seu próprio casamento, e na hora marcada juntou-se ao cortejo na igreja. Uns olhares trocados e uns sorrisos contidos foram o suficiente para que tivesse a certeza que o namoro com Cecília tinha pernas para andar, nesse mesmo dia, na festa da boda, foi um dançar contínuo toda a noite, o que motivou logo falatório dos presentes e a irritação disfarçada da noiva, não era pela mão da mana que queria ver aquele homem entrar em casa.

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Poucos dias passaram e o namoro já era oficial, José Bernardo estava autorizado a ir todo os domingos à janela por detrás do monte empoleirar-se em cima de uma pedra, o parapeito era alto, para conversar de coisas bonitas com Cilinha e poder mexer na suas mãos, que o gradeamento que protegia a abertura não dava para muito mais, apenas um beijo roubado, rápido, se ninguém tivesse a ver, e com muito cuidado, não fosse acontecer o que ocorrera na primeira vez em que o tentou fazer, um caso que poderia ter sido bem complicado, ele, no fogo de a poder beijar, entrou com a cabeça pelas grades adentro mas, depois de cumprido o desejo, não a conseguiu tirar, por mais que rodasse parecia que aquela parte do corpo tinha crescido, a situação ainda veio a piorar quando o apoio que lhe sustentava os pés resvalou e ficou completamente suspenso. Valeu-lhe a sua boa condição física para se agarrar às grades, evitando um certo enforcamento, e a força de Cecília que o empurrava, aflita para não ser apanhada naquele embaraço. Quando no dia seguinte lhe perguntaram o que lhe acontecera às orelhas, que ostentavam umas feridas de tanto terem raspado nos ferros do gradeamento, ele lá se desculpou que caíra da mula.

A notícia do namoro depressa se espalhou, José Ramiro fez questão que soubesse bem do novo pretendente da família, não só para mostrar que as suas filhas não estavam encalhadas, a mais velha já tinha 27 anos e não havia quem lhe pegasse, de todas só Adelina conseguira casamento e mesmo assim o povo comentava que tinha sido arranjo à pressa, o rapaz era meio tonto e nunca fora visto a cortejar quanto mais aparecer como noivo, mas também para que Amélia tivesse conhecimento que o seu querido afilhado ia constituir vida dentro da família que ela tinha renegado. Sedento de vingança, desconhecia o tamanho da tempestade que os seus ventos semearam.

- Dr. Covas, quero que trate de aplicar o que está escrito e lavrado em lei há muito tempo e que eu, na minha imensa bondade, nunca fiz valer. Finalmente o Monte das Gralhas vem para mim por direito. Deixei-os por lá por pena, por serem da família, mas eles não olharam a meios para me atingir, agora sofrem as consequências, paciência tem limites. Já agora, numa próxima vinda à quinta traga também o escrivão para redigirmos de novo o meu testamento, está na hora de tirar das sortes da minha vida aquele maldito e mal agradecido rapaz.

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As palavras de Amélia, enérgicas e dramáticas como sempre, foram ditas ao advogado, chamado à Quinta da Ponte de urgência, no próprio dia em que tomou conhecimento do novo namoro do afilhado, havia que tomar medidas, não podia esperar que aparecesse sempre um bando de corvos para cumprir os seus desígnios, desta vez tinha que ser ela mesmo a bater as asas para que a ira das suas ordens sobrevoasse o Monte das Gralhas e cobrisse de negro o seu destino.

Cria Corvos (2) – Folhetim de pernas para o ar.

Não há memória que Vila Maria alguma vez tivesse tido propriamente o estatuto de vila, nunca passou de uma mera aldeia, mas também nunca ninguém se preocupou com isso, era apenas uma designação, mais importante, sim, era a origem do nome de mulher que carregava na sua denominação, uma vez que havia duas histórias lendárias que perpetuavam, simultaneamente, a génese daquela pequena praça com uma rua principal, espinhada com várias ruelas adjacentes, numa planura alentejana de olivais e searas junto à fronteira.

MULHER

A primeira, vinha dos tempos das guerras com os espanhóis, constava que um rei, nunca ninguém se preocupou em saber qual, a caminho de Espanha, para um encontro militar secreto, também nunca ninguém aprofundou os detalhes do segredo, resolveu parar numa taberna à beira da estrada, um casebre esquecido na poeirada dos caminhos da época, para que fosse dado de beber às bestas da comitiva, e aí perdeu-se de encantos com a mulher do taberneiro, que naquele dia, como todos os outros, penteava os seus longos cabelos escuros debaixo de uma oliveira por detrás do casario. Não tardou mais de meia hora e o todo soberano já rebolava nos lençóis encardidos do quarto, bem ao lado balcão onde o marido servia vinho e pão com azeitonas à restante companhia que soltava altas gargalhadas para abafar os sonantes suspiros monárquicos. Lá para os lados do palácio real não devia haver concubina assim, mesmo sem concertações hispânicas, o certo, é que o sua alteza real voltou várias vezes para se amigar com aquela estranha mulher de cabelos lavados e pele suja, que se mexia na cama como uma serpente com cio, como se tal houvesse, enquanto mandava o marido pastar o gado para bem longe.

Tal foram as aptidões nas artes da lascívia que, além do rei, outros importantes começaram a passar por ali para conhecer os bons ofícios de Maria, sua graça, o que, mesmo em tempos distantes de capitalismo, gerou oportunidades de negócio e, ao contrário do que normalmente acontece quando a má fama se espalha, alguma concentração de casario. Ninguém conseguia atestar esta história, nem mesmo o mais esperto dos doutores, a não ser a memória da língua dos habitantes, mas o certo, é que ela, ainda hoje, é apontada, por muitos, como a verdadeira origem do lugarejo e do nome que sempre carregaram. Mas o peso da denominação feminina não se tornou coisa fácil ao longo do tempo, o nome da virgem recebeu por ali significação pouca virtuosa e, contrariamente ao que acontecia em qualquer parte, em Vila Maria a maioria das mulheres não o recebia no baptismo, aliás, dito entre dentes, era tido como um insulto a lembrar as actividades especialistas da meretriz mais conhecida na região.

A segunda história, sendo tão lendária quanto a primeira, tinha, no entanto, outros contornos, muitos afiançavam que só aparecera para limpar o nome da mãe do salvador, havia mesmo quem afirmasse que só tinha surgido no princípio do século, inventada por um conjunto de beatas na catequese que, cansadas de ouvir o nome da virgem ser proferido com todas as malícias, adjectivar alguém de Maria na terra levava, por vezes, a zaragata, tal o insulto, resolveram dar um novo primórdio ao nome de baptismo do lugar. Dizia então, a nova versão, que numa guerra com os espanhóis, quase todas as historietas contadas envolviam gentes do outro lado da fronteira, foi travada uma valente batalha na região, tão forte que as águas das ribeiras ficaram tingidas de vermelho como se, de repente, uma praga bíblica se tivesse abatido por ali, e que um cavaleiro português, ao saber de um plano de ataque do inimigo, espiara-o durante toda a noite, correu, montado num cavalo, em direcção ao seu exército para o avisar de semelhante estratégia, que a chegar tarde seria a perdição total. No caminho avassalador não contou que uma serpente se atravessasse mesmo à frente da patada da sua montada e que esta, perante o tamanho colossal do réptil, coisa nunca vista nas redondezas, se empinasse quase até ao céu e o atirasse contras a rochas estacionadas na beira da estrada.

Ferido e sem forças, ali ficou estendido durante horas, mais do que o frio da terra, que se arreigava em todos os cantos dos ossos, e do sangue que lhe fugia pelas fendas do corpo abertas na queda, era o sentir que a alvorada ameaçava despertar e que os seus companheiros de armas, ao não serem avisados, iriam ser apanhados na cilada hedionda, bem preparada por aqueles que, até ao momento, estavam a perder a batalha. Como uma criança, perdida dos pais em sonhos, chorou na noite, um carpido a enunciar as mortes todas que iam nascer quando a própria madrugada brotasse, mas, tal como o pranto de menino, acabou por, no meio dos soluços, soltar palavras de ajuda, um colo a pedir à madre mais poderosa que o amparasse para que ele próprio pudesse proteger outros filhos de suas mães. Foi alta a sua prece, uma luz surgiu no breu da noite e trouxe até ele, não só a força perdida, como o cavalo tresmalhado que quase se ajoelhou para que o cavaleiro o pudesse montar. No entanto, somente umas asas podiam compensar o avançar do tempo, o acampamento ainda estava longe e os espanhóis já estavam a caminho, dificilmente chegaria a tempo. Não se sabe como, mas a tal luz, onde o oficial de diligências viu a cara doce da virgem Maria, iluminou um caminho secreto, criado pelos próprios céus, tão curto que ainda antes de qualquer galo ter cantado, já toda a praça militar estava levantada e preparada para receber os castelhanos pelo lado contrário.

Os portugueses ganharam a batalha. Ninguém sabia muito bem que contenda militar estava em causa, nem em que época fora, mas o certo é que muitos acabaram por acreditar nesta versão da sua origem, sempre é melhor sermos abençoados pela santa do que ser filho da puta, e chegaram mesmo a erigir um pequeno padrão logo à entrada da Vila, onde supostamente se deu a aparição. Embalados pelo sucesso romeiro de Fátima, ainda resolveram pedir ao bispo que avaliasse o local como sítio santo, mas o homem foi de pouca fé e, através de um secretariado, pediu apenas que lhe trouxessem relatos de milagres para que, assim, fosse tomada em consideração a possível aparição da mãe de todos em cima de um rochedo. Ao que consta, os milagres rarearam e o assunto foi esquecido.

Pouco ligado às lendas da terra, nem mesmo a praga anunciada dos corvos, que desfizera numa tarde as ilusões amorosas duma vida, lhe deu maior fé, José Bernardo andou perdido durante uns tempos, primeiro ainda insistiu com Belinha para que o casamento fosse de novo tomado logo após o luto, mas desde que um dia vira nos olhos dela a febre do ódio a derramar veias, depressa desistira da ideia, o seu caminho já não entroncava naquela porta e havia outras veredas para trilhar, o problema era saber quais. Na tentativa de encontrar novo mapa da afeição, fez o que qualquer homem fazia quando queria curar a dor dos males de amor, procurou a quentura dos copos e dos corpos para melhor se orientar. Entre noitadas na taberna, até o Ti Jerónimo o pôr para fora, e as tardes enrolado com a dama da rua florida, aquelas juras de amor sussurradas ao sabor dinheiro sabiam-lha a mais pura das verdades, gastava os seus dias.

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- Estás a ficar um fraco, e um homem não se quer fraco, macho fraco morre depressa, ainda que possa andar por aí – disse Maria Bernarda, avó materna de José Bernardo, quando ele um dia a foi visitar a seu pedido. Mulher vinda de outras paragens, de terras perto do mar, depressa conquistou as gentes de Vila Maria com a sua forma especial de encarar a vida, pouca dada a lamentações e com energia para levantar uma existência do chão, conseguira criar os cincos filhos sem ajuda do marido, que ficara acamado até ao fim dos seus dias, após uma parelha de coices da mula raivosa comprada a um cigano na feira. Mesmo no enfraquecer dos seus setenta e dois anos, ainda tratava das suas galinhas poedeiras e colhia erva para os coelhos que vendia para o mercado da cidade, se a moléstia não lhe pegasse, criando, assim, um pequeno sustento para que nem filhos nem netos se preocupassem em aliviar a pobreza da sua velhice. Mas o que a tornou afamada foi a sua capacidade para pôr um assunto em pratos limpos sem problema de espécie alguma, afirmava mesmo que não era nenhum baú para guardar segredo de quem quer que fosse, então vocês não aguentam com ele e eu é que vou ficar calada, dizia ela sempre que alguém lhe pedia para não contar nada a ninguém, se é para não dizer então fique vossemecê entupida com ele, que cá eu não faço de alçapão de vossemecês. Perante esta determinação, era uma romaria de vizinhas à sua porta, umas para porem a circular algo que andavam a dizer baixinho ou que tinham entalado na língua há muito, outras para irem buscar as novas que precisavam de soar alto, não sou eu que digo, é a velha Bernarda.

José Bernardo encolheu os ombros como resposta ao comentário da avó, ela tinha razão, devia ter, tinha sempre, mas sabia-lhe bem aquela fraqueza miudinha, de não decidir nada, de se deixar engolir pelo cantar das horas, dia após dia, como os gatos que andavam por ali, a preguiçar o sol e o borralho da noite. Voltar à Quinta da Ponte estava fora de questão, a madrinha já tinha mandado vários recados, mas ele fizera-se mouco de orgulho e nada respondera, nem sequer uma contra mensagem devolveu, queria esquecer o tempo que ali tinha queimado e encontrar novos rumos, ainda que a pujança para os procurar tivesse ficado fechada como ficou toda a afeição do seu querer.

- Zé, tens que te fazer à vida, ela não pára muito tempo no apeadeiro e quando dás por ti já lá vai longe – continuou a avó Bernarda a sua filosofia de responso, na tentativa que o seu neto mais querido lhe desse ouvidos e largasse aquele ar de cão sem dono.

- Eu sei, mas não me conformo, é muito azar para uma pessoa só, perdi tudo.

- Mas que azar Zé? Sempre tiveste tudo e ainda podes ter outra vez, basta quereres. Engole o orgulho e volta para a maldita velha, faz-lhe novas festas e, mais dia menos dia, és dono de tudo aquilo.

- E a Belinha?

- Esquece-a, se ela realmente te quisesse estava aí ao teu lado, tu não vês que o maior querer dela era o que tu valias para a velha, nada mais, ao ver que não a podia vencer desistiu de ti, como quem larga carga de mula cansada em caminho empinado.

- A avó acha mesmo que devo voltar para a madrinha e fazer de conta que não aconteceu nada?

- Essa é maneira mais fácil de resolveres as coisas, mas não a melhor, antes de qualquer abastança está a endireitança de um homem. Tens bons braços e boa cabeça, levanta-te dessa modorra e faz-te à vida por ti mesmo, não falta por aí quem te queira.

Se sobre o querer das raparigas a avó tinha razão, a sua boa figura e o facto de ser o menino querido da mulher mais poderosa da região fazia com que fosse pretendido por tudo o que era mulher casadoira, no entanto, no que respeitava a trabalho, não era bem verdade que o pretendessem em parte alguma, sempre de volta da madrinha, José Bernardo não aprendeu grandes artes da lavoura nem de quaisquer outras ofícios, até mesmo nas sortes, a velha inspecção militar, tinha ficado mal, mais uma vez a protectora tinha movido influências, nessa ocasião junto a um capitão de cavalaria, para que o seu querido menino ficasse livre das agruras militares e, assim, continuasse disponível no seu labor de escudeiro de vontades. A consciência que sendo homem feito pouco mais sabia fazer do que conduzir a madrinha à cidade e fazer vistorias no grande casario para ver que obras precisava, levava a que não ganhasse vontade para enfrentar de novo o mundo.

- Anda, ajuda-me a esfolar uns coelhos para entregar no Monte das Gralhas, parece que lhes deu lá a moléstia e precisam de uma dúzia deles para a boda da Adelina.

O sol já quente de Maio fez pôr de lado a ideia da matança dos animais, o melhor era mesmo metê-los numa alcofa e entregá-los vivos, eles que os matassem quando quisessem, senão ainda azedava a carne e boda acabava todo de molho, a rebolar na cama com dores e cheiros pouco agradáveis, como a da filha da comadre Rosália que, graças a uns ovos estragados, as galinhas dela nunca foram grande coisa, espalhou os convidados todos pelos campos adjacentes à festa do copo-de-água com as calças nas mãos, até noiva passou a noite a entregar o seu corpo, reservadamente casto, a um grande balde de alumínio.

José Bernardo preparou a mula e resolveu, ele mesmo, ir entregar os bichos ao monte, precisava de desassombrar as ideias e os campos naquela altura, com o perfume e as corres garridas dos mantos florais, criavam alento novo a almas mortiças. Ainda há pouco tempo todos os percursos que fazia eram no bonito Chevrolet De Luxe Sedan preto da madrinha que, quando chegou à aldeia nos finais dos anos 50, fazia as pessoas sair de casa para o ver passar, e agora, para não ir a pé, tinha que albardar o velho animal que, mesmo sem a carroça que puxara durante uma vida, arrastava já as patas. O contentamento de respirar aquele ar colorido de primavera em força, como se tivesse estado fechado num casarão de uma cidade e o sabor da terra fosse apenas lembrança de meninice, fê-lo assobiar uma melodia alegre, uma canção que nem o nome sabia mas que ouvira algumas vezes na Emissora Nacional no programa Serão para trabalhadores. A falta de melhor memória fazia com que o sibilo não passasse do principal estribilho, a única parte que lhe tinha ficado na mente, ainda fez algum esforço para se tentar recordar da restante melodia, coisa que não conseguiu, um outro canto mais harmonioso interrompeu-o, uma bela voz feminina, por ali perto, trinava um fado sobre um amor desgraçado.

Até a própria mula deve ter ficado fascinada com semelhante cantar, empancou definitivamente no caminho estreito de terra batida e nem umas vergastadas mais fortes no lombo a demoveu, parecia escutar atentamente a forma melodiosa como as palavras da música eram soltas no ar. José Bernardo desmontou a besta e bem tentou puxá-la, nem que fosse para percorrer apenas o resto do caminho a pé, o monte estava perto, ali mesmo no cimo do olival que vinha até à estrada, mas foi em vão, nem sequer o mais leve movimento das patas da besta se vislumbrou. Apesar de tudo não se sentiu agastado com a contrariedade, ele próprio acabou por ficar cativado com o embalar de semelhante canto, como se fosse um chilrear especial da passarada que naquela época invadia os campos, e, para matar a curiosidade da autoria, aproximou-se da ribanceira, delimitada por um pequeno muro de pedras, que separava a estrada do terreno da parte debaixo, a horta do monte. Ao fundo, pôde, então, verificar que uma rapariga, enquanto esfregava com força uma peça de roupa no ladrilho do tanque envolto por um extenso laranjal, cantava, entregue a si própria, uma melodia sobre os desenganos do amor. Era a Cilinha, a filha mais nova do dono do Monte das Gralhas. Olhou para ela e viu que estava uma bonita moça, bem ao contrário daquela menina ranhosa e definhada que chegou à escola quando ele já estava a sair. Na altura, a completar a sexta classe, um quase homem a romper os poros, não olhou muito para ela, apenas lhe ficara na ideia a imagem de uma miúda pequena com um ar muito doente e com a qual todos se metiam, para puxar as suas longas tranças, mas agora parecia-lhe bem diferente, estava uma mulher de busto saliente e de pernas carnudas, bonitas apesar de alguma brancura de inverno que se enxergava sempre que ela se debruçava sobre o ladrilho para esfregar melhor o encardido da fronha. Gostou do que viu, e se os ares daquela primavera estendida pelos campos o tinham feito respirar melhor o dia, aquela nova paisagem de uma moça entregue a lavagens e cantorias ainda o acalentou mais, tanto que lhe apeteceu meter conversa para ficar por ali uns momentos numa cavaqueira soalheira ao sabor das laranjeiras que, em flor, já espalhavam um cheiro agradável por todo o lado.

Para criar assunto resolveu fazer uma pequena brincadeira, atirar subtilmente uma pedra sobre a água do tanque e desta forma criar uma pequena diversão para que Cilinha soltasse um ai de susto e, qual casta donzela, ruborizasse quando o visse e lhe chamasse de maroto. Sem fazer muito ruído, felizmente que a mula continuava empancada como uma estátua, procurou uma pequena pedra para fazer o seu tiro, mas na altura da escolha achou que uma maior fazia mais efeito no cair das águas e provocaria, assim, um sobressalto mais sonante, ideia que o levou a apanhar um calhau do tamanho da palma da mão. O espavento criado acabou por não ser propriamente a queda do objecto voador sobre o leito do tanque mas, sim, o grito de dor que Cilinha soltou, por força da fraca pontaria de José Bernardo, ao receber na sua cabeça a pedra robusta tão carinhosamente escolhida.

Foi com a cara dela num banho de sangue que chegaram os dois ao monte, o que provocou um alarido nunca visto, Dona Conceição e as restantes quatro filhas saíram em alvoroço ao seu encontro, quem teria tentado matar a sua bela menina?, só podia ter sido obra dos ciganos, que andavam a rondar o monte há algum tempo a tentar apanhar alguns animais mais soltos nos campos, felizmente que o Zé tinha passado e a socorreu. No entanto, aquilo que parecia ser uma tragédia imensa, afinal, não passava de uma pequena ferida na testa que, depois de lavada e tapada com um pequeno lenço a fazer de ligadura, depressa estancou e deu um outro ar àquela cara que ainda há pouco tempo se iludia como uma chaga total.

Já os ânimos estavam mais calmos, quando José Ramiro entrou na sala, soturno e silencioso, como sempre. O mulherio envolvia, na altura, José Bernardo e Cecília para tentar obter explicações sobre os acontecimentos, como tinha aparecido do céu uma pedra a voar, obra de Deus não era, só podia ser mesmo do diabo ainda que em forma de gente, e de gente sem eira nem beira, que quando apareciam só traziam problemas, se calhar o melhor era chamar a guarda para os pôr dali para fora.

- A culpa é da cadela da tua prima, que os deixa acampar no terreiro – disse José Ramiro para Dona Conceição, naquilo que foram as primeiras e as suas únicas palavras. Mesmo sem perceber muito bem o que se estava a passar, e no meio de um hálito a vinho, sabor constante no seu dia-a-dia, não deixou de culpar a parente da mulher por aquele acontecimento, desde os tempos de juventude que Amélia simbolizava todos os males que lhe desabaram em cima.

Conceição fez que não ouviu, já sabia que qualquer resposta sua, por muito boa que fosse, teria apenas como palavra de réplica o som do peso das mãos dele, maldito homem aquele que só lhe dera amargura, melhor seria ter caído morta no dia em que o seu coração parou ao ser roubado de amores por um jovem ceifeiro do norte que descera ao Alentejo apenas para fazer a campanha de Verão da ceifa, a prima bem a avisou, que ele era um interesseiro e que só lhe ia trazer desgraça, aliás a nenhum lhe assentava tão bem o nome de ratinho, alcunha pela qual eram conhecidos os trabalhadores agrícolas que desciam a sul à procura de faina temporária, com falinhas mansas levou-a no encanto mas depois roeu-lhe tudo, até a alma mais profunda. Se arrependimento matasse servia-o, por certo, todos os dias, de mansinho, em copos bem grandes de vinho, como ele gostava, até que aquela sombra de homem caísse redonda no chão e lhe devolvesse a serenidade necessária para o resto do pouco tempo que ainda tinha para corroer.

Uma espécie de conto de Natal (reprise em casa nova)

Pela sua mesa de consoada já tinham passado muitas pessoas, muitas delas apenas porque queriam a fraternidade de uma mesa farta. Mas este ano, ele tinha um lugar especial, o único de uma mesa vazia, para um convidado muito particular, a morte, a sua própria morte.

Ao lado de um copo, meio cheio, de um tinto Barca Velha, colheita de 1999, repousava um frasco de barbitúricos que seriam a chave para que tão ilustre convidado entrasse, se sentasse à mesa e comungasse com ele todas os manjares com que tinha sido encenada aquela consoada. Não quis que faltasse nada, mesmo que fosse o último momento, a última ceia, e que o apetite não abundasse, não hesitou em encomendar na confeitaria mais famosa todas as iguarias típicas de uma noite como aquela.

Enquanto saboreava os leves aromas a violeta, baunilha, e cedro do líquido vermelho vivo oriundo do Douro, que naquele momento se despertava após 3 horas da abertura da garrafa, pensava como seria o seu convidado. Seria a tal luz branca ou aquela carcaça de capa e capuz com a uma gadanha na mão? Pouco importaria a imagem, tinha sido ele a enviar o convite e não podia agora armar-se em esquisito.

Sabia que após o encontro com tal ilustre personagem, todos aqueles prazeres que o acompanhavam no último momento iriam desaparecer, assim como todo o cenário à sua volta. Não se importou muito, afinal há algum tempo que tudo aquilo o sufocava e se definhava dia para dia, o emprego, a casa e a família eram apenas miragem de uma vida que tinha sido um autêntico festival de sucesso.

Um estranho som vindo lá de dentro interrompeu os seus pensamentos, já um pouco turvos, não se sabe se da jóia duriense, se do primeiro comprimido que tomara. Pelo barulho pressentiu que era alguém. Quem seria, se a porta não se abrira e ele estava sozinho em casa? O convidado? Mas ainda era cedo, e uma simples pílula não poderia provocar a sua entrada extemporânea. Ou será que o maduro néctar dos deuses tinha acelerado o encontro?

Ainda todas essas dúvidas desfilavam aos saltos na sua mente e já tinha um vulto no meio da sala, que permanecia apenas iluminado pela luz duma lareira já quase morta. Deu para perceber que nem tinha um objecto cortante na mão nem vinha vestido de branco. Pelo contrário, quando a luz foi acesa pelo intruso, pode verificar que as vestes eram vermelhas, bem vermelhas. Um pai natal, meio desajeitado, olhava para si com um ar ainda mais espantado do que o seu. Como podia aquilo estar a acontecer? Há muito que deixara de acreditar em fantasias natalícias e ninguém sabia que ele tinha permanecido sozinho em casa, para que de repente lhe tivessem vindo fazer uma visita.

- O que faz aqui? – perguntou o Pai Natal, um pouco atrapalhado.

- O que faz aqui, digo eu! – respondeu Eduardo, enquanto se levantou repentinamente em direcção ao seu convidado clandestino.

- Não tinha que estar fora, lá para a sua terrinha?

Eduardo não respondeu e, como começou a não gostar da presença recém chegada, tentou apanhar um instrumento de ferro da lareira, mas foi interrompido por um gesto repentino do Pai Natal, que lhe apontou uma pistola.

- Quieto! Nem mais um gesto!

Tinha imaginado tudo para aquela noite, mas nunca que tivesse especado na sua sala, perante ele, um Pai Natal, por sinal pouco anafado, com uma arma na mão.

- Mas isto é alguma brincadeira de mau gosto? – tentou Eduardo fazer conversa. – Aviso desde já que não estou com paciência para brincadeiras. Absurdos na minha vida não me faltam.

- Absurdo é o meu amigo ter ficado aqui sozinho a curtir não sei o quê e a estragar o meu trabalho.

- Trabalho, mas que trabalho?

- Ó meu, além de sorumbático natalício és tão idiota que ainda não percebeste que vim gamar a tua casa?

- Mas como se atreve?

- Como me atrevo? Porquê, é preciso licença para assaltar? Ó pá, um assalto é isso mesmo, entrar sem ser convidado. Mas pouca treta, que isto já tem conversa a mais. Já que estás aqui, passa para cá os cartões e os códigos que assim sempre arranjo dinheiro vivo de imediato.

- Nem morto.

- Mau, mau, mau! Esta cena já me está a pôr com comichões, e quando fico assim, o meu dedo fica nervoso e sai disparo na certa.

O Pai Natal aproximou-se e encostou a pistola à cara de Eduardo. Fizeram algum silêncio.

- Vá em frente, alegre a minha consoada! – pediu Eduardo. – Estive toda a noite à espera disto. Pensava que iam ser uns comprimidos malditos, mas se tiver que ser um tiro tudo bem. Então, não tem coragem? Que espécie de pai natal é que é você, que nem sabe entregar uma prenda a um pobre desesperado?

O Pai Natal perdeu a paciência e deu com a coronha da pistola na cara de Eduardo, o que, além de o deitar pelo chão, lhe fez soltar o sangue do nariz.

- Ai, que dores! – gritou Eduardo. – Você é doido? Olhe o que fez, vou ficar com o nariz partido.

- Ainda, há pouco, estava a pedir a morte e agora está aí feito mariquinhas. Ou quer ir para o outro mundo com o nariz direito?

- Quero uma coisa rápida, não quero sofrimento. Já me basta a vida.

- Ai, coitadinho, não quer sofrer! Estes ricaços querem sempre viver com anestesia. Passam a vida a explorar os outros mas depois não aguentam quando as coisas lhe correm mal. O seu sofrimento é apenas uma birrinha burguesa perante os que verdadeiramente sofrem.

- Era o que me faltava, além do vermelho da coca-cola, tinha que ter um pai natal bolchevista.

- O primeiro aviso já o teve, agora deixe-se de cantilenas e passa para cá o que lhe pedi, antes de avançar para o belo recheio que anda por aqui.

- Ó homem para que quer cartões, se eu não tenho dinheiro nenhum? Estou arruinado, ainda não percebeu? Do pouco que me restou, a minha distinta mulher ficou-me com ele e pôs-se a andar. Até esta maldita casa vai para as mãos dela.

- Chiça, são mesmos totós! Estes gajos encantam-se com essa louras boazonas armadas em tias, habituam-nas a bons vícios, boa roupa, grandes carrões, a não fazerem nenhum, depois é o que dá. Gaja tem que ser amarrada logo ali, desde início, senão quando se dá por ela já nos comeram as papas na cabeça.

-Pelos vistos, de bolchevista a marialva foi um segundo.

- Piadético, o man! Vá levante-se e faça-me um visita guiada pela sua gruta, vou começar a encher o saco.

- Não tem vergonha de vir assaltar disfarçado de pai natal?

- Quer melhor do que isso? Quem desconfia se vir um pai natal a entrar por uma janela?!

- Mas não tinha que ser por uma chaminé?

- Ai, que porra! Continuas com essas piadas e estás aqui, estás a levar outra.

Eduardo levantou-se e voltou a colocar-se à frente do Pai Natal.

- Vá, ainda não fez o seu trabalho, dispare essa treta! Se me deixar vivo eu vou contar tudo à polícia.

- E vai dizer o quê, que um pai natal encheu o saco em sua casa? Ó amigo, quem sabe não é a sua casa o tal armazém do pai natal.

- Mas tem medo de quê? Está ai com essas coisas, mas não é capaz de fazer uso dessa arma. O que é a vida de outro para si, especialmente quando essa vida nada vale?

- Bom, o melhor é eu bazar antes que isto se complique. Esta cena começou a correr mal desde princípio, e eu não estou para aturar um burguês maníaco-depressivo. Ainda me passo dos cornos e tenho que lhe enfiar um tiro nos ditos do gajo.

O Pai Natal afastou-se de Eduardo para fazer a sua retirada daquela vivenda outrora por si desejada, não deixando, no entanto, de controlar os movimentos do proprietário pelo canto do olho. Já se tinha cruzado com muito doido na sua vida, mas aquele pareceu-lhe que superava tudo, desejar a sua própria morte na noite de Natal, numa noite onde se pretende celebrar a vida. Mesmo a assaltar que fosse, celebrava a vida, a sua vida, de se desenrascar e seguir em frente.

Uma raiva invadiu Eduardo, não sabe se por ter tido um intruso na sua noite especial, e lhe estragar o encontro, se por o invasor não ter a bravura de completar aquilo que ele próprio já tinha perdido a coragem de fazer, e voou sobre o Pai Natal, que não teve tempo de se defender. Rolaram os dois no chão. Ouviu-se um tiro.

De mãos na cabeça, Eduardo não queria acreditar. Um homem vestido de pai natal estava caído no chão da sua sala e o encarnado do seu traje começava a ser inundado por um outro tom mais vermelho, o sangue que emergia duma ferida provocada pela bala que tinha sido disparada acidentalmente durante a briga dos dois homens.

- Mas o que faço agora, meu Deus, o que faço?! – gritou Eduardo em pânico.

- E que tal se chamasses o 112? – sugeriu a vítima, que entretanto pareceu voltar a si.

- Está bem, sente-se bem?

- Estou uma maravilha, levei um tiro no bucho e estou catita!

Eduardo procurou desesperadamente o telemóvel e marcou o número de emergência. Ninguém lhe atendia. Os poucos funcionários de serviço não deviam ter mãos a medir perante os excessos daquela noite. Esperou mais um pouco para insistir. Entretanto, pegou num guardanapo, de linho bordado, e colocou-o, pressionando, sobre ferida para tentar estancar o sangue.

- Não me deixe morrer! – pediu o Pai Natal, enquanto agarrava nas mãos de Eduardo, numa tentativa de também fazer pressão.

- Claro que não. Irónica esta vida, ainda há pouco pedia a minha morte e agora só peço que ela não venha para si.

- Se calhar fez mal o pedido, ela enganou-se na morada.

- Tudo me corre mal na vida.

- Pare com isso, sabe lá o que é correr mal a vida, sabe lá o que lutar todos os dias para não acabar caído. Vocês os ricaços à mínima coisa fazem logo um drama. Não vê que a vida foi feita para vocês, tudo vos é servido em bandeja de prata. Queria a morte, mas quem acabou caído? Eu! Ainda por cima diz que lhe corre mal a vida.

- Não fale, que isso faz esforço.

- Olhe, deixe os gajos do INEM e leve-me ao hospital.

- No meu carro?

- Não está à espera que eu tenha as renas lá fora, pois não?

Eduardo fez uma insistência para o 112 mas voltou a não obter resposta. O sangue continuava o seu caminho até ao exterior. A melhor solução era mesmo arrastá-lo para o seu carro e levá-lo ao hospital, que nem era muito longe. Durante o percurso tentou manter conversa com o pai natal ferido, que seguia deitado no banco detrás, mas depressa viu que não havia resposta, inconsciente ou morto ele permanecia mudo.

Perante tanto sangue, no hospital, foi logo arrancado para uma maca que desapareceu num longo corredor. Eduardo ficou a tentar dar os dados na recepção, mas nada podia dizer, nada sabia, apenas que tinha dado um tiro no pai natal, noticia que correu pelo hospital inteiro, pois aos poucos foram aparecendo funcionários que vinham verificar o tipo que tinha abatido o homem das barbas brancas mais famoso do mundo. Um deles, ainda sussurrou ao ouvido de Eduardo, “para a próxima faça o serviço completo, atire também naqueles altifalantes que passam musiquinhas irritantes de natal”, mas ele não estava com disposição para humor negro àquela hora.

Já estava a polícia, entretanto chamada, a tomar conta da ocorrência, quando apareceu um médico. Não trazia boas notícias:

- Infelizmente o homem que entrou vestido de pai natal não resistiu aos ferimentos e acabou por perder a vida.

O mundo não só desabou sobre Eduardo, como caiu imediatamente pela ribanceira abaixo. A morte afinal tinha vindo mas escolheu a pessoa errada. Ainda estava com as mãos agarradas à cabeça, a tentar organizar o caos dos pensamentos, quando uma outra personagem do hospital irrompeu e trouxe novas renovadas:

- O Pai Natal desapareceu!

Olharam todos uns para os outros sem saber o que dizer. O polícia, que ainda tinha esperanças de passar por casa e comer umas rabanadas com a família, começou a ver o seu panorama nocturno complicado, depois de um homicídio a um pai natal tinha agora um fantasma em fuga.

- Quando voltei para o cobrir, ele já não estava lá. Já vi nas salas ao lado e nada. O estranho é que não há vestígios de sangue pelo chão para se poder seguir. Evaporou-se!

Instalou-se o caos, um hospital, um pouco debilitado de quadros naquela noite, à procura de um suposto pai natal em fuga, por sinal cadáver, segundo laudo médico. Mas nada, nem uma pista. Como Eduardo não tinha conseguido fornecer os dados à entrada e o processo não tinha sido concluído, nem sequer havia registo, logo a vítima não existia.

- Bom, se não há registo de entrada, se não há vítima, não estamos aqui a fazer nada – disse o polícia, a procurar resolver a sua vida, especialmente a tentar ainda abrir os presentes com o filho nessa noite. – Vamos todos à nossa vida que o maluco do pai natal deve andar por aí bem vivinho da Silva.

- Como é meia-noite, foi fazer o seu serviço – comentou em jeito de piada um dos médicos presentes. – Não é um tirozeco qualquer que impede o pai natal de tornar as crianças felizes.

Depois de identificado, para prestar declarações posteriores, Eduardo retomou o caminho para casa. Agora já não queria estar só, já não queria encontros do outro mundo. A vida era demasiado estranha para ser interrompida, queria comungar deste absurdo de todo os dias até ao fim. Para começar, arranjar companhia naquela noite.

Parou o carro em frente a um pequeno grupo de três pessoas, sentadas numa arcada de um prédio, eternos deserdados da noite, e convidou-os para irem cear com ele. Loucura não faltava na vida daquela gente, por isso aceitaram o convite doido de um estranho e foram. Comeram, beberaram, riram-se e, sem presentes, trocaram vivências durante quase toda a noite, como se fossem íntimos, amigos de uma vida.

De manhã, quando Eduardo se levantou não estava ninguém em casa, os seus convidados, que tinham permanecido no calor da sala, por certo, já tinham ido. Tinha razão, eles partiram mal a madrugada despertara. Tentou arrumar um pouco a desordem instalada na noite anterior mas depressa perdeu a vontade, ao olhar mais atentamente a sala viu que faltavam objectos no seu lugar habitual. Uma certa nudez tinha invadido aquele espaço, muita coisa tinha desaparecido, muita coisa tinha sido remexida. Apenas a árvore de natal, colorida e luminosa, permanecia segura e intacta.

Eduardo soltou uma enorme gargalhada e saiu para a rua respirar aquele dia frio e soalheiro que se lhe oferecia pela janela.

- Feliz Natal! – desejou ele ao primeiro transeunte de uma rua quase vazia.

Cria Corvos (1) – Um pseudo folhetim

Cria corvos e comer-te-ão os olhos.

Quando José Bernardo ouviu esta frase proferida pela madrinha, de costas voltadas para ele a fingir contemplar a paisagem distante da janela, ficou gelado, empedernido no meio da sala, como uma estátua equestre no centro da praça. Nunca esperou que ela reagisse daquela forma, com uma frase cortante, sem nexo com o assunto, e a acentuar cada sílaba na ressonância de uns dentes cerrados. Calculava que a reacção não seria a melhor, ia perder o seu querido afilhado, mas responder, assim, à notícia do seu casamento estava fora de qualquer previsão. Bem que ele ensaiou várias formas de comunicar o evento antes de entrar na sala grande, sempre escura, de cortinas corridas, a luz causava dores de cabeça à velha senhora, mas nada adiantou, a reacção foi a pior possível.

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- Madrinha, eu não vou embora, vou estar por aqui.

- Para mim foste para sempre – disse Amélia Bento de Oliveira, sem mover o mais pequeno músculo a não ser os labiais, caídos e rugosos, para deixar sair aquela frase dramática.

- Não percebo, afinal eu vou casar com a Belinha, que a madrinha tanto gostava – José Bernardo tentou apelar a algum sentimento saudoso que ainda pudesse existir perante aquela que foi, durante muito tempo, a sua criada de servir. Esqueceu-se que Amélia, mal suspeitara que havia namorico com o seu afilhado, a tinha corrido de casa alegando que lhe desaparecera um anel.

- Uma ladra é o que ela é.

- A madrinha sabe que não é verdade, o anel apareceu depois no armário do corredor. Olhe que nunca ninguém a mimou tanto como a Belinha.

- Basta! Esta conversa tem agora um ponto final. Vai então procurar a tua felicidade, mas não tenhas ilusões, nunca a irás encontrar.

Sem mais palavras, José Bernardo deixou a casa grande, o local onde passara quase todos os seus dias desde que se lembrava de si mesmo. Filho do antigo encarregado da grande propriedade que começava na quinta do Arco, mesmo dentro da aldeia que tinha nome de vila, Vila Maria, e da cozinheira dos ganhões, foi, desde os tempos de berço, o aí Jesus da única filha do homem mais poderoso das redondezas, que viu nele um certo consolo para o seu colo estéril e virgem de mulher culta e rica que se deixou passar no tempo sem nunca vislumbrar homem para constituir família. Mas se nos primeiros tempos esta protecção maternal de madrinha de baptismo foi farta para o pequeno Bernadinho, assim o apelidava, depressa se tornou um afecto sufocante pois, o medo de o perder, fez com que não o deixasse ganhar asas, seguir estudos, uma instrução básica era suficiente para tomar conta da propriedade. Todos pensaram de início que, face ao carinho que a madrinha tinha pelo afilhado, ela o iria pôr a estudar na capital para se formar doutor. Mas não, nem à cidade lhe foi permitido ir para fazer o liceu. Mal terminou a sexta classe ficou como uma espécie de aio da senhora, que sofria na altura o enorme desgosto da morte do pai, mais do que nunca, precisava naquele momento de um homem, ainda que de calções, que estivesse ao seu lado para a orientar. Os estudos, supostamente, só eram importantes para quem nada tinha e o Bernadinho começava uma caminhada para ser dono de tudo aquilo, uma fatia quase total das redondezas.

- Está decidido, vai ficar aqui ao meu lado – com esta frase Amélia decidiu o destino de José Bernardo, ser uma espécie de camareiro da grande proprietária da região. Mesmo a aprendizagem das lides da terra, o tomar conta dos negócios que poderia vir a herdar, foi ficando para trás, todo o tempo era pouco para andar à volta da madrinha, que era um autêntico poço sem fundo de caprichos. Por mais que ele tentasse pôr o pé fora de casa, para ganhar um pouco o mundo, havia sempre um pedido súbito de Amélia para que voltasse depressa, só um chá feito pelo afilhado a impedia de entrar em convulsões e de chamar o médico a casa, especialmente se lhe faltavam os fins de tarde, em que ela, todos os dias, o sentava no seu colo e lhe acariciava os seus cabelos cor de mel enquanto lhe contava histórias dos seus antepassados, umas reais outras inventadas ao gosto das festas capilares.

Sabor a rosas, era assim que José Bernardo sentia a pele da madrinha quando, sentado no colo, tombava a sua cabeça no peito dela e se deixava embalar pelos gestos enfeitados de palavras. Com o tempo, aquela sensação de paz e aroma florar, foi dando lugar a um certo desconforto de rapaz de pelos nas pernas sentado no colo de senhora velha, e aquilo que era uma fragrância macia depressa se transformou numa sensação enjoativa de pele de galinha perfumada. Uma questão de ossadas acabou por resolver o que começava a ser um problema, enquanto os ossos de rapaz vigoroso ganhavam volume e muito peso, os de uma velha senhora davam sinais de fragilidade. Assim, o colo de embalar foi substituído por um aconchego no sofá onde, lado a lado, ela continuou a falar das vidas que viveu e que imaginou viver, naquele seu tom verbal eloquente, de sílabas quase soletradas, como se fosse projectada para uma peça teatral épica, de grandes tragédias e fortunas em tempos perdidos. O sabor perfumado tinha desaparecido mas a impressão de uma pele crespa mantinha-se, Amélia, nos momentos mais empolgantes da sua prédica apertava a mão do afilhado, como se ela própria ficasse com medo do que dizia.

O tempo vai amaciá-la, pensou José Bernardo quando, novamente, se viu cá fora, no meio da praça. Apesar de ser Novembro o dia estava bonito, um sol tépido aquecia as portadas das casas, onde mulheres de negro faziam rendas para matar os dias que ainda lhe restavam nas suas casas vazias, morrem cedo os homens cá da terra, é o que dá a bebida ruim com que tragam o resto da jorna amarga que desperta em cada canto dos malditos galos, autênticos relógios feitos de facas afiadas que se cravam na cabeça durante a madrugada. Apesar de tudo, seguiu para casa feliz, ainda bem que os pais juntaram uns tostões e resolveram fazer uma pequena morada fora dos muros da quinta, nunca se sabe o dia de amanhã, fez o que tinha que ser feito e agora era esperar pelo dia 1 de Janeiro para ficar ao lado da mulher que lhe dava tardes de namoro à janela cheias de brilho.

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Escolheu o primeiro dia do ano porque queria entrar em grande numa nova década, ainda por cima o irmão dizia-lhe que vinham aí grandes tempos. Ele nunca percebera a verdadeira razão dessa afirmação, talvez porque o irmão António referia sempre isso logo que começava um novo ano, especialmente desde que andava a monte, em fuga dos senhores do governo lá da capital, como que a fazer um brinde ao alento de melhores tempos. Ao contrário de José Bernardo, António fez estudos na cidade, onde completou o liceu e se perdeu na vida, mais vale ser bruto e não saber as coisas, dizia o pai, mais tarde, perante a atitude revolucionário do filho de contestar o poder de então. Não tanto por ignorância, talvez até mais por medo de falar de coisas de política, dizia-se nas redondezas que ele estava fugido por ter roubado coisas de umas lojas na cidade e era por isso que ninguém lhe punha a vista em cima, falavam até que ele já tinha passado a fronteira e estava em terras de França. Mas não, ele nunca se afastou muito, por isso, a família, sem saber como, de vez em quando recebia a sua visita relâmpago que, com a mesma velocidade com entrava, terminava depois ao fim de algumas horas, apenas o tempo suficiente para apanhar alguma roupa lavada, uns tostões que se arranjavam e uma merenda forte de enchidos. Na última visita, ao saber do casamento do irmão, o foragido fez mais um discurso sobre os novos tempos que se aproximavam, uma outra década ia começar, e congratulou-se com ele por iniciar uma nova vida cheio de esperança no futuro ao lado da mulher que gostava em vésperas de ventos de mudança. Por pouco não deixou escapar um certo sabor de inveja nas palavras de felicitação, mesmo acreditando na luta pelos grandes valores da liberdade e da igualdade entre os homens, também ele almejava um tempo tranquilo numa casa sua ao lado da camarada com quem mantinha um relacionamento um pouco atribulado, viam-se uma vez por outra em casa de conhecidos.

- Este rapaz nunca vai ser feliz, a madrinha não o vai deixar em paz – comentou uma das velhas ao sol, quando José Bernardo passou e as cumprimentou com um certo sorriso de contentamento forçado. Apenas um “pois” se ouviu das outras comadres soalheiras, a conversa morreu logo ali, não porque as rendas e bordados estivessem complicadas e não se pudessem cruzar com palavras da vida alheia, como era costume, mas porque não era bom falar da D. Amélia naquele tom, as paredes têm ouvidos e as pessoas língua comprida, uma indisposição com aquela mulher e a vida na aldeia ficava logo mais difícil, quase todos acabavam por trabalhar nas suas herdades, não que a senhora fosse pessoa de grandes truculências com o pessoal da terra, pelo contrário, sempre que alguém lhe batia à porta no desespero, ela socorria com alguma coisa, nem que fosse com uma bolsa com pão e uma morcelas da salgadeira mais antiga, mas, mesmo assim, era preciso algum cuidado com o que dizia para não cair na sua desgraça.

Desde aquela estranha tarde de domingo de Novembro, quente como obra do diabo, em que o afilhado lhe anunciou o maldito casamento, que Amélia não voltou a sair à rua. Envolta num luto repentino, acentuou ainda mais o preto que vestia desde a morte do pai, mandou colocar umas cortinas de veludo negro em todas as janelas dos compartimentos onde normalmente estava e quase que deixou de falar com todas as pessoas, só mesmo o encarregado da lavoura e a criada da casa grande acediam a ela. Até a missa na igreja da praça, onde ela fazia questão de ir todos os domingos, foi substituída por uma comunhão com o padre na capela da quinta, o que causou alguma perturbação, pois todas as semanas no fim da celebração dava aos mais necessitados o resto do pão e dos grãos que tinham sobrado da jorna dos ganhões, e que era o consolo de muitas barrigas vazias da terra. Mas só na primeira semana ficou em falta, nas seguintes, mesmo não comparecendo na homilia, mandou entregar as doações alimentares como o costume. Ficaram-lhe agradecido e mais ninguém se importou porque é que ela não aparecia, todos sabiam que era apenas uma entrega ao desgosto de perder o afilhado e, como qualquer desgosto, aquilo havia de passar. Não passou.

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Quando naquela manhã, do dia 1 de Janeiro de 1960, José Bernardo se sentou dentro do alguidar com água quente para o banho da semana, fê-lo com mais cuidado, afinal não era todos os dias que um homem se casava. Enquanto esfregava bem as partes mais íntimas, tudo tinha que estar num asseio completo, um pensamento libidinoso invadiu-lhe a cabeça, como seria a noite com a sua Belinha? Umas carícias mais ousadas e uns abraços roubados, além dos beijos triviais de namoro, fora tudo o que conseguira obter até então, ela queria ir de branco e merecê-lo bem. Ele não tentou contrariar a ideia, aguentou-se firme, até porque desde os 17 anos que fazia uma visita regular a uma senhora na cidade, numa casa perto do castelo, na rua mais florida que houvera vista, tanto era o ornato que até a cama dela parecia cheirar a jardim, ao principio não gostou muito, fazia-lhe lembrar outros odores florais de mulher na infância, mas depois excitava-o, sempre que no meio do entrelaçar dos corpos provinha, da janela aberta, um aroma de alfazemas, malvas e outras coisas que não conseguia identificar. Aquela ideia de desejo e de cheiros foi interrompida por um barulho inóspito de uma passarada do outro lado da janela. Estranho, naquela altura do ano só as aves de capoeira marcavam presença, ainda por cima era não um chilrear, soava-lhe mais a um canto agreste de pássaros grandes. Mal se limpou foi à janela mas não viu nada, apenas ao longe pareceu deslumbrar uma certa nuvem negra que poderia ser um bando qualquer a desaparecer.

- Viste aquilo? – perguntou-lhe Mariana, a sua irmã, que recolhia, à pressa, uma roupa de um estendal no quintal, umas peças necessárias para passar a ferro e ainda vestir na cerimónia que começaria dali a pouco.

- Não – respondeu-lhe ele da janela.

- Passou por aqui um bando de corvos, negros como a noite. Imagina tu, uma passarada desta logo no primeiro dia do ano. Isto não é boa coisa!

José Bernardo não ligou aos agoiros, coisas de mulher, e fechou a janela. Já não faltava muito tempo para entrar na igreja e ainda tinha que se vestir com o melhor fato que lhe encontraram, tarefa complicada para um homem que apenas pusera gravata no dia em que foi tirar fotografias na cidade, e mesmo essa fora emprestada pelo fotógrafo. Olhou-se ao espelho para ver como ficava. Achou-se estranho naquela figura de rapaz aperaltado, mesmo a madrinha que insistia em tê-lo sempre com uma roupa lavada e sem remendos, o que fazia dele quase um príncipe da aldeia, nunca o tinha posto naqueles preparos.

José Bernardo, nos seus 25 anos, tinha uma figura diferente da maioria dos homens da região, alto, de cabelo e pele clara, olhos de cor indefinida, davam-lhe uma aparência de quase estrangeiro e alimentavam ainda mais a má-língua sobre a sua avó, uma alentejana que no início do século se perdeu de amores por um estranho que apareceu nas redondezas e que falava uma língua que ninguém entendia. Quis a vontade dos sentimentos que não fosse preciso tradução para se entenderem e a então moça, às escondidas de poucos, a família, e com conhecimento de muitos, o resto da aldeia, foi dando abrigo, uma cama na almeara da eira, e uns restos de comida roubada a sim mesma, esta rapariga anda a comer muito mal, embrulhados com um certo carinho ao foragido. Mas da mesma forma misteriosa em que apareceu por aqueles lados, desapareceu um dia e a jovem ficou entregue a um desgosto profundo que só um casamento com um primo em terceiro grau, um bom homem que não se importou com o que diziam, a fez reagir. Não adiantou levar 3 meses para casar e mais 9 para ter o único filho que parira, o certo é que, quando a criança nasceu, o pai de José Bernardo, lourinho e de olhos claros, foi logo vista como uma herança do estrangeiro, o pecado tinha ficado lá dentro e viera ao de cima fora de tempo mas no momento certo ainda que, caprichos de Deus para marcar bem a virtude roubada. Anos mais tarde, a figura do neto confirmou ainda mais a crença, só que ela já não estava por perto para sentir na pele os olhares maliciosos da maledicência, se o desgosto da perda do seu encantamento estranho foi grande, o de ver o marido não se afeiçoar ao filho foi ainda maior, até ele, tão boa pessoa, acreditava no falatório da gente da terra, o que fez com que um dia, cansada de lhe chamarem Maria quando afinal era Genoveva, ela agarrasse na faca com que degolava as galinhas e a passasse nas suas próprias goelas. Não adiantou tentarem atar-lhe o pescoço para suster o sangue, pelo contrário, até há quem diga que foi isso mesmo que a fez cair no chão e a deixar para sempre quieta no meio daquele banho vermelho em que se tinha transformado o terreiro do seu quintal. Uma corda pendurada de seguida pelo marido numa oliveira, a poucos metros dali, fechou de vez a história daquele casal amargurado pelas próprias narrativas da sua vida. A criança, na altura com 6 anos, viu-se num só único dia a percorrer o caminho solitário dos órfãos, que conseguia ser ainda mais sombrio e silencioso do que aquele que sempre conhecera desde o primeiro momento. Só mesmo umas décimas, cantadas em tabernas ao som do vinho, lhe perpetuaram a memória dos acontecimentos.

À hora marcada, José Bernardo caminhou para a igreja, a pouca distância fez com que o percurso que separava a casa dos seus pais e o local onde ia comungar, aos olhos de Deus, o seu destino com o de Belinha fosse percorrido a pé, num cortejo vistoso em que uma parte era da boda e outra saía à rua para ver as vestimentas de quem passava. A noiva, em último lugar naquela procissão, de braço dado com o pai, era o andor principal. Apesar do dia em causa seguia com ar contrafeito, mesmo que fosse perto queria ir de carro para a igreja, como faziam as raparigas ricas, e não arrastar a cauda do vestido pela terra batida das ruas, por muito que as meninas enfeitadas com flores no cabelo amparassem as abas do traje, todas orgulhosas daquela missão importante, o certo é que a veste perdia a olhos vistos a alvura tão pretendida. Ainda que seguissem todos em conjunto, o cerimonial fez com que a noiva só entrasse na igreja depois do noivo e todo o resto de convidados estar devidamente acomodado, o que ainda demorou algum tempo, há sempre umas velhas tias que não encontram sítio ou quando o encontram não é o ideal, mesmo ao lado está uma comadre com a qual já não trocam palavras há muito. Estava ela a ajeitar os molhos de fazenda do vestido com as rendas emaranhas do véu junto ao altar, as fotografias iam congelar aquele momento para sempre e não queria que a vissem mais tarde alagada no revolto de tecidos, quando soltou um grito.

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Não se sabe de onde, nem sequer era época, mas, aproveitando a porta aberta, um bando de corvos, os testemunhos não foram exactos, de meia dúzia a cem tudo se ouviu, invadiu a igreja e, além do barulho ensurdecedor das suas gralhas estridentes em eco, num gesto de fúria, atacaram as pessoas presentes que, perante tão inusitado acontecimento, desataram numa gritaria pegada, coisa inusitada naquele local de toadas contidas. Talvez pela brancura acetinada do vestido da noiva, duas aves tomaram conta dela e desferiram um ataque violento, como se estivessem num ajuste de contas com algum espantalho que os afastara de campos bem fartos de sementeira. Mesmo com a ajuda de José Bernardo, que espantou as aves durante algum tempo, Belinha ficou arranhada na pele e nas vestes. Fugir para o adro foi a solução. As aves ficaram lá dentro em silêncio, como era conveniente numa igreja, donas do lugar. Entre várias soluções atiradas ao ar, a do Patalino foi a que acabou por ser posta em prática, ele nem esperou que houvesse concordância, correu a casa, mesmo ali ao lado, buscar a caçadeira, ainda por estrear, esperava uma caçada valente para dar os primeiros tiros, e entrou pela igreja adentro, pronto a fazer justiça com semelhante intrusão.

- Ai minha nossa senhora, que ele vai partir tudo! – clamou dona Guilhermina, ao temer o estardalhaço que uma caçada aos pássaros pudesse ver dentro de uma igreja.

Não se enganou. Patalino, no seio da sua inexperiência de atirador, só a gente de posses, com propriedades e dinheiro para armas, se podia dar a esse luxo de andar sempre a caçar, disparava para todo o lado, mas eram mais santos e caliços que caiam no chão do que aves, unicamente umas meras penas avulso se soltaram e pairavam no ar. À porta, um grupo de convidados contemplava a cena dantesca, aves em reboliço, estilhaços por todo o lado, um enorme cheiro a pólvora e tudo isso dentro de uma pequena igreja. A preocupação já não estava na estranha passarada ali albergada, mas sim no próprio templo que parecia vir abaixo com os disparos. Octávio, pai de Belinha, não aguentou mais ver aquela destruição sem sentido, avançou sobre o seu compadre, tinha que o impedir de continuar aquela loucura, quando a passarada fosse abatida já não havia igreja para a sua menina casar, e tentou pedir-lhe que parasse. Com o seu pouco treino, não aguentando firme a chicotada dos disparos, Patalino acabou por desviar o sentido da arma e um dos tiros segui direito ao peito do seu velho compadre que, de braços no ar, lhe tentava dizer algo.

A queda do corpo no chão devolveu ao ambiente um certo silêncio, os disparos cessaram, os convidados ficaram mudos com o que viram e a passarada voou para uns frisos de talha dourada sobre o altar e ali permaneceu quieta. Foram os gritos de Belinha, que avançou, como uma fera picada, sobre o pessoal que lhe entupia a porte, a quebrar o estado hipnótico em que todos se encontravam. Já pouco preocupada com a brancura do vestido, o sangue rompia em força na camisa acabada de estrear do seu pai, agarrou-o para que ele lhe dissesse qualquer coisa, mas apenas obteve um gemido sumido antes que a cabeça dele tombasse definitivamente nos seus braços. Quando todos pensavam que ela iria iniciar o carpido dos mortos, Belinha levantou-se, ainda com mais força com que entrara, pegou na espingarda de Patalino, pousada num banco enquanto ele expiava o remorso num pranto, avançou até ao altar e disparou sobre os corvos, que assistiam empoleirados a todos os acontecimentos sem um único pio. A primeira coisa a tombar foi o Cristo, que chegou ao chão já pulverizado. Mas nem o facto de ver o filho do Criador desfeito a seus pés, só mesmo os pés pregados ficaram intactos, a fez desistir, um novo disparo, o único que lhe restava com uma caçadeira de dois canos, foi solto. Só não houve mais tragédia por milagre, afiançaram alguns, pois ao primeiro tiro a passarada levantou voo e Belinha desferiu o segundo disparo já virada para o centro da igreja, tendo o pessoal sentido o deslize dos chumbos a soprar-lhes bem perto das cabeças. Como entraram, os corvos saíram, de um momento para o outro esfumaram-se no horizonte, apenas dois ficaram caídos no chão, como testemunho, mesmo ao lado de Octávio, um deles ainda batia as asas, embora por pouco tempo, a noiva, agora já com pouco vestígios disso, apanhou-o e torceu-lhe o pescoço com um força viril e de satisfação. Juntou os dois pássaros no regaço do seu vestido e saiu da igreja, sem que alguém fizesse algo para a impedir.

Não bateu à porta, despiu o vestido, aquele mesmo que quis branco e que naquele momento era uma mistura de tons onde o vermelho se destacava, colocou nele os 2 corvos mortos e largou-o mesmo ali, junto à entrada principal da casa grande da Quinta dos Arcos. Anos mais tarde contava-se que Belinha, depois de largar os pássaros nos restos do seu vestido, deambulou nua pela aldeia até ao anoitecer, mas não, ela apenas seguiu, em combinação de cetim, prenda da madrinha de casamento para a noite de núpcias, directamente para sua casa, não muito longe dali, onde se fechou num luto eterno. A negrura dos seus dias a partir daquela data não permitiu outras cores mais alegres, pelo que todas as tentativas de José Bernardo para retomarem um destino comum foram em vão, não havia mais lugar no seu coração para a brancura de um novo vestido de noiva.

- Esta terra é mesmo destrambelhada dos cornos, é o que dá a gente não saber se, afinal, descendemos de uma santa ou de uma puta – alguém comentou no fim do dia.

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Maria Clara, já estou pronta!

 

 

Irene abriu o roupeiro e começou a escolher as roupas que iria vestir naquele dia. Um simples vestido azul com bolinhas brancas para a manhã, não ia sair de casa, um casaco branco para colocar por cima e, assim, sair depois de almoço até à pastelaria no rés-do-chão do seu prédio para o seu café cheio, com 2 pacotes de açúcar, e, finalmente, uma saia-casaco salmão de lã, que sempre arrefece, para o passeio do fim da tarde. Colocou todas as peças em cima da cama. A empregada já sabia do ritual, passado pouco tempo passava por lá, pegava nelas e dava-lhes um jeito com o ferro. Enquanto não estivesse pronta a primeira veste, Irene ultimava a parte final da sua higiene matinal, apenas a mais simples, a facial, pois a filha todos os dias antes de sair dava-lhe um bom banho. Com 83 anos já lhe era difícil entrar na banheira e lavar-se sozinha, a última vez que o tinha tentado fazer escorregara e fracturara a perna, o que a deixou muito abalada, não pelo traumatismo ósseo propriamente dito, mas porque esteve à beira de um esgotamento nervoso com o facto de ter que ficar fechada em casa durante alguns meses.

Depois do cafezinho pós-almoço e de uma tarde na companhia da sua irmã, com quem mantinha acesas discussões sobre tudo e nada até ao chá das cinco em ponto, momento em que todas as asperezas eram postas de lado pela doçura dos biscoitos e das compotas, Irene voltava ao quarto para fazer a sua higiene de fim de tarde, retocar a maquilhagem, uma mulher não pode sair à rua apenas de cara lavada, e vestir a última toilette escolhida. A empregada, mais uma vez, já sabia que tinha que entrar em cena, comparecia no quarto todos os dias à mesma hora, ajeitava-lhe a roupa, havia sempre uma gola que não estava direita, e ajudava-a a colocar o batom, a mão trémula da velha senhora já não lhe permitia contornos exactos.

Quando a filha abriu a porta, já no final da tarde, pôde ver a paisagem de sempre. A sua mãe, lá estava ela, sentada na cadeira almofadada do hall de entrada, toda arranjada, com uma das melhores indumentárias que tinha, bem hirta, com a mala, a condizer com os sapatos, pousada no colo e a bengala, de punho de prata, numa das mãos.

- Maria Clara, já estou pronta! – repetia ela, como uma deixa teatral, todos os dias ao ver a filha entrar depois de um longo dia de trabalho.

Cansada, ser directora financeira dava muito trabalho, especialmente nas épocas de crise em que há que ginasticar, por vezes com autênticos saltos mortais à retaguarda, toda a economia de uma empresa, Maria Clara suspirava para que a mãe perdesse um pouco o fôlego e não quisesse sair todos os dias para um passeio de fim de tarde. Quer estivesse sol quer estivesse chuva, fosse dia ou já noite profunda, Irene esperava sempre pela filha para fazer um mediano passeio de carro pela cidade ou, se ainda houvesse tempo, uma pequena ronda pelas montras.

- Mas ò mamã, já é tão tarde, estou tão cansada, só me apetece atirar para a cama – suplicou a filha na tentativa que a mãe fosse sensível ao seu estado.

- Por amor de deus, Maria Clara, até me falta o ar! Eu estou um dia inteiro aqui fechada, a ver uma televisão deprimente, a ter que estar sempre em cima da Fernanda, senão faz tudo mal, e a aturar a tua tia Luísa, que não sai de cá.

- Mas a tia Luísa vem para lhe fazer companhia, para se distraírem.

- Distrair? Não se pode conversar com ela, está sempre, sempre, no contra. Imagina tu que agora até me diz que vai votar no Bloco Esquerda. Com aquela idade armada em revolucionária, não vê que esse tipo de politiquice é de gente nova. Qualquer dia perde o juízo de vez e ainda me chega aqui de minissaia. Estás a ver o que eu passo, todos os dias. Ainda queres tu que fique aqui, ai não, preciso mesmo de ir apanhar ar. Tu sabes muito bem como são os meus nervos, tenho que espairecer, aliás o primo Antunes bem o recomendou na última consulta.

- Mas ó mamã, ainda por cima o carro está a fazer um barulho esquisito – tentou Maria Clara uma última oportunidade, aproveitando o facto de o carro ter um chiar esquisito, provavelmente a avisar que estava na hora de ir à revisão.

- Se é por isso, que também não quero ficar aí parada no meio da rua a esta hora, chamamos um táxi.

- Um táxi?

- Sim, ainda tenho reforma para pagar isso.

Maria Clara viu que mais uma vez nada no mundo iria demover a mãe de querer o passeio de sempre.

Uma ida rápida à casa de banho, para se refrescar e tirar uns malditos sapatos que a apertaram o dia inteiro, e lá estava ela de novo no elevador a caminho da garagem, o ruído no carro não devia ser coisa grave, para o eterno passeio do fim do dia. A sua mãe, entretanto, já lhe fazia o relatório do dia, normalmente encabeçado com as queixas sobre a empregada, segundo dela aquela serviçal devia ser a pessoa mais incompetente à face da terra, não fazia nada como ela queria, mas no dia em que Dona Fernanda faltasse ela ficava em pânico de a perder, eu afeiçoo-me às pessoas, dizia sempre.

Ao chegarem à garagem encontraram uma situação que à primeira vista poderia ser muito feliz para Maria Clara, um carro estava mesmo atravessado em frente ao seu lugar e impedia a saída do seu veículo. Podia ser que, assim, Irene desistisse.

- Conheces o carro deste anormal? – perguntou Irene já com alguma ansiedade.

- Não, é primeira vez que o vejo, ou é gente fora do prédio ou vizinho novo.

- Isto é forma de se deixar um carro, imagina que me dava uma coisa e querias ir comigo ao hospital?!

- Deve ser por pouco tempo. Eu apito e deve vir logo alguém.

- Mas quem é que te vai ouvir aqui na garagem?

Mesmo assim Maria Clara insistiu em apitar. No entanto, após várias tentativas, ninguém apareceu e elas não conseguiam seguir caminho.

- Isto é uma falta de civismo, só mesmo neste país – disse Irene num tom já exaltado. – Por terem um carro grande pensam que são os donos do mundo.

- Bom, se calhar para não nos chatearmos mais, o melhor mesmo é voltar para casa, deixamos um papel no vidro, para não repetir a graça, e pronto.

- Voltar para casa?! – gritava Irene. – Nunca! Isto não pode ficar assim.

Antes que Maria Clara pudesse fazer qualquer coisa, Irene pegou na sua bengala, que usava desde que tivera o problema na perna, e começou a bater com ela com toda a força, no capot do carro, dando lugar a grandes amolgadelas.

- Mamã, pare, por favor! – pediu Maria Clara, tentando travar os ímpetos da mãe. Mas sem sucesso, com o punho revestido a prata deu umas fortes pancadas nos farolins, o que levou à sua quebra imediata, criando um conjunto de estilhaços no chão da garagem.

Completamente estarrecida, Maria Clara arrastou a mãe para fora da garagem e meteu-a no elevador, não só preocupada com o seu estado quase histérico, mas também com as consequências do acto tresloucado. Ela que, após enviuvar, pensou que ir viver com a mãe era uma forma de estar mais tranquila, achava agora que devia ter ficado no seu canto sozinho, em paz e sossego. Irene chegou a casa num estado bastante agitado, não conseguia estar sentada, andava de um lado para o outro, e a sua respiração era bastante ofegante. Tanto que foi necessário chamar o médico, Antunes, um primo da família, para analisar o seu estado e lhe receitar um ansiolítico.

Maria Clara, aproveitando a presença do primo ainda lá em casa, nem sequer desceu à garagem, quando teve que sair para comprar o medicamento à mãe, a farmácia de serviço era ali mesmo, no fim da sua rua. Ainda atónita com todo o acontecimento, a sua mãe apesar de rezingona nunca tinha tido uma atitude daquelas, nem reparou que estava uma pessoa estendida na rua e tropeçou nela. Uma mulher ruiva, jovem, bem vestida, estava caída no passeio, junto à parede, perante o total alheamento dos que passavam.

- Sente-se bem? – perguntou Maria Clara, quando se recompôs da quase queda.

A mulher não respondeu, olhou para ela e esticou-lhe a mão. Maria Clara, pensando que ela queria que a ajudasse a pôr-se a pé, deu-lhe a mão e puxou-a com força. Só lhe faltava, como corolário de um dia completamente louco, ter agora uma mulher despenhada a seus pés. Com alguma dificuldade, a mulher levantou-se e agarrou-se a Maria Clara, primeiro nos ombros, depois na cara, o que lhe restringiu os movimentos. O mais inesperado aconteceu, a desconhecida, valendo-se de a ter imobilizado, aproximou-se da sua cara e deu-lhe um forte beijo na boca.

Quando Maria Clara entrou na farmácia para comprar os calmantes para a mãe pediu de imediato um copo de água para ela própria tomar, logo ali, dois de seguida.

Uma Orgia ao Fim da Rua

 

No que é que uma mulher pensa quando se apanha sozinha em viagem? Compras. E o que pensa um homem? Sexo. Não adianta negar, vem escrito nos genes. Mal um gajo se apanha liberto das amarras em terra estranja só pensa em soltar a franga.

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Pedro escutou estas palavras e não ousou contrariá-las, não porque concordasse literalmente, mas porque rebater o seu amigo e colega Bernardo era uma tarefa inglória, especialmente quando ele vinha com as suas retóricas sexistas, exacerbadas agora que o erudito tinha um blogue onde despejava as suas teorias de pacotilha sobre comportamentos.

- É por isso que eu arranjei um programa fantástico para a nossa ida a Barcelona – anunciou Bernardo. – Vai ser de arrasar.

- Vê lá no que nos metes, olha que eu quero paz e sossego – avisou Pedro, já a temer que a coisa pudesse ficar complicada naquilo que seria uma simples viagem profissional de 2 dias para uns workshops chatos de marketing, normalmente umas reuniões em cadeia onde se tiram umas conclusões muito engraçadas que depois se esquecem de imediato quando se regressa a casa. Bernardo tinha uma teoria, aquilo era uma espécie de recreio empresarial, em que os mais durões, chefes e afins, se querem exibir na brincadeira, para mostrar que são inteligentes e têm grandes ideias, e obrigam os mais fracos, os funcionários normalizados, a fazerem parte da reinação. Felizmente que havia sempre umas colegas tolhidas de boas que alegravam o joguinho, dizia ele.

- Aquilo vai se um aborrecimento completo, eu estive a ver a listagem do pessoal participantes e é uma seca, no nosso grupo estão 2 alemães convencidos que têm a mania que mandam em tudo, ainda não lhes passou o Fhuer. Bom, então de gajas é uma miséria completa, desta vez os deuses não estão connosco, só vão três e duas delas, já as conheço, são uns autênticos estafermos, daquelas que ficam em último lugar num concurso de misses mesmo quando são as únicas correntes. Há esperança apenas numa, mas não se pode arriscar. O melhor é tratar da nossa vidinha fora dali. Estive a ver umas coisas na net…

- Bom, eu nem quero saber.

- Mau-mau, mau-mau! Não te armes em pudico. Vais agora dizer que não gostavas de um pouco de Carnaval? Conheço-te bem e sei que mesmo com esse ar de sonso fazes os teus caldinhos.

- Uma coisa é uma rambóia, outra coisa são os teus esquemas. Mas vá lá, diz-me o que andaste a congeminar.

- Qual é a tua maior fantasia?

- Porra, sei lá! Achas que no meio da análise de uma pilha contratos eu consigo reflectir sobre os meus desejos secretos? Poupa-me!

- Ok, poupe-te então ao confessionário, afinal isto vai dar tudo ao mesmo. Sabes, eu já fiz muita cena, já pintei a manta de todas as maneiras, mas há uma coisa que nunca fiz e ando com a pulga a picar-me, que é participar numa orgia.

Pedro não caiu da cadeira, mas não deixou de entornar o copo de água num dos contratos, irra, já tinha que ficar até mais tarde para compor aquilo.

- É isso pá, uma loucura total, chegar ali e tudo ao molho – reafirmou Bernardo, um pouco deliciado com a atrapalhação do amigo. – Já tratei de tudo. Estive a ver na net, há um site sobre um grupo em Barcelona onde nos podemos inscrever, marcamos a noite e pronto, aparecemos.

- Eu não quero acreditar que estejas a falar a sério. Já te imaginaste realmente numa coisa destas, ainda por cima numa altura cheia de doenças.

- Ouve lá, andas a ver muitos filmes porno. Aquilo é quase inócuo, é mais mexer, reboliço e tal do que propriamente fornicanço puro e duro.

- Uma coisa na net!? Sabes lá onde nos podemos meter, tu não viste aqueles filmes de terror, Hostel e coisas assim?

- Deixa lá os filmes, aquilo pareceu-me uma coisa segura. Há uma pré-inscrição e tem lá a morada deles e tudo, aquilo é um grupo que costuma arranjar umas faenas destas.

- Bernardo Pimentel, sabes que mais? Cura-te!

Mas Bernardo não só não procurou nenhuma terapia, como levou adiante a ideia e inscreveu-se a ele e ao amigo na tal orgia. Como sempre, inventou todo os dados, mas mesmo que não inventasse o resultado não seria muito diferente, pois como o site estava em catalão não entendeu muito o que era solicitado. O pior é que não foram só os dados que ele não entendeu, todo o enquadramento da festa sexual não pôde ser muito analisado face à estranheza da língua. Sabia que era uma orgia imensa e a morada, era o que interessava.

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Na viagem até Barcelona pareciam 2 crianças excitadas com as aventuras que iam fazer nas férias. Mesmo Pedro, que rejeitou a ideia, mal se apanhou no avião começou a ficar entusiasmado com a hipótese de experimentar toda aquela loucura. O facto de não ir sozinho levava-o a sentir-se um pouco mais seguro.

Mal chegaram ao hotel o tom eufórico começou a desvanecer-se, havia uma confusão nas reservas e só havia um quarto marcado. O pior não foi o hotel estar cheio e não haver mais nenhum espaço para albergar outro dos portugas, o pior foi mesmo quando chegaram ao quarto e viram que a cama era enorme, mas de casal. Não adiantou reclamar para a recepção, do outro lado só escutavam “completos, estamos completos” ou então algo que não entendiam mas que presumiam que não seria nada abonatório sobre eles.

- Começa bem, para quem vinha para a rambóia total com todas as chicas das redondezas acabamos juntos, os 2 mânfios, na mesma cama – desabafou Pedro, sentado num cadeirão sem vontade de desfazer as malas.

- Deixa lá, que isto compõe-se. Amanhã arranjam-nos mais um quarto – sossegou Bernardo. – Além disso, também não era aqui que íamos fazer a festa.

- Era a última coisa que me apetecia, dormir contigo. Não vou dormir nada.

- Está descansado pá, que mesmo que eu um dia virasse para o outro lado não ia querer nada contigo. Já que ia ser assim, ao menos queria coisa de primeira água – brincou Bernardo. – Não é por nada, mas não fazes propriamente o meu género.

Pedro sorriu, mas, apesar do alívio de saber que podia ter uma noite descansada, sentiu o seu ego um pouco lá por baixo, afinal ninguém gosta de ser desconsiderado. Arrumaram depressa as coisas e fizeram-se à cidade, estar naquele quarto passou a ser uma situação desconfortável.

À saída do quarto, no corredor, esbarraram numa empregada da limpeza que, ao ver quem tinham saído de uma suite matrimonial, lhe lançou um sorriso maroto.

- Eu nem quero acreditar que estamos a passar por um casalinho – voltou a lamentar-se Pedro, no elevador, enquanto se olhava ao espelho e verificava se realmente não era de primeira água.

- Que ideia! Tu achas que alguém ia acreditar que um tipo como eu podia andar com um tipo como tu?!

Mais um comentário assim e Pedro quando regressasse a Portugal tinha iniciar sessões de psicoterapia. No entanto, na rua depressa virou as atenções quando Bernardo lhe apresentou a sugestão da noite.

- Como temos que estar frescos para a sessão de trabalho amanhã de manhã e depois finos para a grande festa da noite, o melhor é fazermos uma coisa simples e regressarmos relativamente cedo. Vamos apenas jantar e pronto.

Pedro não queria acreditar no que ouvia, o seu amigo Bernardo a apresentar um simples e banal programa nocturno. Devia estar doente, por certo. Ou será que afinal estava a ficar curado da sua enorme panca de tarado sexual? Não, a patologia erótica mantinha-se, o jantar ia ser num restaurante coqueluche, segundo alguns guias da capital catalã, onde a comida era supostamente afrodisíaca servida por belas empregadas em topless e fio dental.

- Vamos carregar baterias para amanhã à noite – justificou Bernardo, depois de ter anunciado mais uma das suas eleições, um pouco antes de chegarem ao restaurante, também ele escolhido na plataforma digital global.

- Para quem vai ter que dormir na mesma cama, não sei se será boa ideia isto de ir arranjar excitação extra – disse Pedro, mais uma vez receoso com a ideia de ter que compartilhar a cama com um homem, logo ele que se pudesse, mesmo casado, dormiria sozinho quando fosse mesmo para dormir, pois tinha o sono muito leve e acordava ao mínimo toque.

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O problema de Pedro com uma provável libido desgovernada ficou de imediato solucionado mal entraram no restaurante, aquela noite era uma de ladies night e as suspostas ardentes empregadas em lingerie diminuta tinham sido substituídas por uns matulões de bíceps insuflados e desnudados, com apenas uns boxers, justos e curtos, de cetim lilás. Já para não falar da clientela, ruidosamente feminina na sua maioria e alegremente masculina alternativa em minoria.

- Pelo menos não falta mulherio, pode ser que ainda nos toque alguma coisa – tentou consular Bernardo, perante o desalento e o incómodo de Pedro.

Mas se tivesse tocado, por certo, não teria sido da ala feminina, mas sim de uma outra que, apesar de também vibrar sempre que um empregado desfilava com uma bandeja na mão, fazia a barba todos os dias. Afinal, dois tipos numa mesa, numa noite em que o corpo masculino era a estrela, só podiam mesmo captar o olhar de congéneres da tal minoria alternativa, e nunca a parte fêmea, que apenas os viam como mais um casalinho inacessível.

- Não percebo aqueles tipos, estão ali os dois de beijos e abraços mas não param de olhar para nós – comentou Bernardo, já um pouco desconfortável com a investida à distância. – Não chegam um para o outro? Parece que querem ainda mais.

- Não eras tu que querias uma orgia? – ironizou Pedro. – Se calhar eles também. Será que não se inscreveram na mesma festa? Vê lá!

- Até podem lá estar, mas não vão faltar mulheres, eu vi umas fotos no site de festas anteriores.

- Fotos, mas os gajos publicam fotos? – perguntou Pedro, engasgando-se com um pedaço de beringela com queijo, que já lhe estava a custar passar na garganta, pelo facto de ela vir montada numa forma fálica.

- , devem ter tirado só umas como exemplo, para as pessoas verem como aquilo é. Além disso, já te disse que o pessoal está todo nu mas tem uma máscara.

Se o jantar já estava a ser desconfortável naquele momento passou a ficar aterrador, Pedro não parava de pensar na festa, como é que ele ia andar nu no meio de uma multidão, com uma mascara ridícula na cara, e ainda poder ser fotografado? Se um dia se soubesse daquilo lá pelos lados das terras lusas, não só Paula lhe punha a mala à porta, como a sua querida mãezinha dava entrada numa urgência hospitalar em estado terminal. No entanto os pensamentos sinistros depressa lhe passaram quando reparou que tinha quase uns glúteos espetados na sua cara. Um empregado fazia uma dança especial com as ancas para umas clientes da mesa ao lado e num dos passos mais ginasticados espetou o seu traseiro de ginásio em direcção à mesa de Pedro.

- Ainda bem que estes gajos se depilam – observou Bernardo.

- Porquê, na tua primeira água não podem estar peludos?

- Não, apenas estar aqui a comer, ou a fingir que tal, e andarem estes marmanjos em cuecas a passear de um lado para outro, não seria muito recomendável se os gajos fossem peludos. Engraçado, vejo que amofinaste com aquilo de não seres a minha primeira água.

Pedro não respondeu à provocação, sugeriu que fossem embora, estava com vontade de ir à casa de banho e a ideia de ir à do restaurante assustava-o um pouco, não queria ter encontros imediatos de terceiro grau com a clientela masculina presente num sitio onde se tem que deitar calças abaixo. Mas a conta demorou e pressão urinária não sossegou, Pedro acabou mesmo por ir às instalações sanitárias daquele espaço que estava a ficar pior do que a casa fantasma.

Entrou a receio. Aparentemente não estava ninguém. Dirigiu-se imediatamente ao urinol. Quando estava a meio da sua libertadora função sentiu que uma porta de uma cabine se abriu. Não olhou, tentou manter-se tranquilo, apesar de se aperceber que quem estava nos lavatórios podia enxerga-lo directamente naquela situação. Esse facto provocou nele uma contracção, impedindo-o de chegar ao fim do acto. Por fim, com algum esforço chegou ao epílogo do alívio. Terminada a função, apertou as calças, voltou-se e dirigiu-se ao lavatório. Ficou para morrer. Ao espelho, estava uma bonita mulher retocando a maquilhagem.

- Perdon, tive que venir aqui – disse ela. – La nuestra estava completa e yo mui apertadita.

- No problema – disse Pedro, arranhando um espanhol pouco ortodoxo, aliviado por a invasora ser uma mulher, mas embaraçado por ter estado naqueles preparos também à frente de um exemplar do belo sexo.

- Vale, aqui somos todas chicas, non?!

Antes de sair, e depois de ter guardado a maquilhagem na carteira, a espanhola deu mais uma olhadela para Pedro.

- Poes en outra encarnacion, se te vienes al outro lado de la fuerza, llama-me. Es que está mui bueno, hombre!. Que malgastar, por Díos!

Bernardo estranhou a boa disposição com que Pedro voltou da casa de banho, mas nem perguntou a razão. Não queria mesmo saber.

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Chegados ao quarto iniciou-se o processo mais complexo da noite, dormir na mesma cama. Sem terem combinado nada, adoptaram uma estratégia idêntica, dormir cada um junto à sua beirinha, no limite do abismo do colchão. Assim, não havia o perigo de nem um hálito tocar no outro. Resultado, foi uma autêntica noite em que esteve a chover homens no chão. Pelo menos, assim pensaram os ocupantes do quarto de baixo que passaram a noite a ouvir ora um, ora outro, a cair da cama. Tal foi o número de quedas, ao mínimo movimento do sono iam pelo abismo abaixo, que os hóspedes de baixo fizeram queixa na recepção pelo reboliço da noite. Mais uma vez Pedro e Bernardo tiveram que levar com um sorriso maroto, quando o concierge lhe pediu que fossem mais discretos na próxima noite.

Felizmente que era um novo dia e tinham um workshop pela frente. Durante as sessões, poderiam ter anunciado as suas promoções a vice-presidentes que eles nem notavam, tal era o estado embrenhado dos seus pensamentos com a finalmente grande e explosiva festa que os esperava pela noite.

Foi com alguma dificuldade que se livraram do programa cultural que a organização tinha perspectivado para a noite, uma jantar de comida catalã e uma ida a um espectáculo de teatro de vanguarda, um dos muitos que anima a bela urbe de Barcelona. Lá disseram que tinham um parente a viver na cidade e que tinham combinado um jantar com ele.

- Era o que mais me faltava aturar estes estafermos também pela noite. A única tipa de jeito tinha que ser casada com aquele estafermo do vice-presidente dinamarquês – comentou Bernardo enquanto iam a caminho da ditosa orgia.

Pedro nem respondeu, ia num estado de nervos tal que as palavras ficavam entaladas. Nem mesmo ao jantar, onde despacharam umas sandes à pressa, soltou o pio. Bernardo, pelo contrário, falava e falava sem parar. Talvez também por estar nervoso.

Tiveram alguma dificuldade em encontrar a rua onde ia decorrer o grande evento, mas ao fim de algum tempo estavam numa ruela, mal iluminada e apertada, que ostentava na placa o mesmo nome que eles traziam apontado num papel.

- Achas mesmos que devemos entrar? – perguntou Pedro receoso.

- Ó pá, agora que chegamos até aqui, vamos até ao fim. Estamos os 2 juntos nada nos pode acontecer. Além disso, estamos em Barcelona, uma das cidades mais desenvolvidas do mundo, não estamos propriamente num paíseco obscuro qualquer.

- Promete-me uma coisa, se a coisa não estiver a correr bem para um de nós, saímos os dois, ok?

- Claro, isto só tem piada se tivermos bem os dois e não um a fazer o frete porque apenas o outro quer lá estar. Vamos?

- Ok. Algarve, aí vamos nós!

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Riram-se. Ajeitaram os casacos e tocaram à campainha. Um fulano de quase 2 metros de altura e com uns ombros mais largos do que a própria porta atendeu-os, começou por lhe perguntar os nomes e a identificação. Confusão geral. Bernardo tinha dado nomes falsos e não tinha nenhuma identificação que provasse essa identidade criada na net. Num espanhol meio confuso lá lhe disse que se tinha enganado nos nomes, o que enfureceu ainda mais o gorila, que gritou que aquilo era uma coisa séria, de responsabilidade. Com a confusão apareceu um outro fulano, menos encorpado, que acabou por achar piada ter ali 2 portugueses a querer participar naquilo e deixou-os entrar, não sem antes os ter obrigado a identificar e a assinar um papel em que assumiam que era por livre vontade que ali estavam. Pelo menos era isso que eles acharam que assinaram, dado que estava em catalão a declaração em causa.

O segurança encaminhou-os para uma sala ampla onde várias pessoas se despiam. Bernardo e Pedro tiraram logo o retrato dos restantes participantes. Ficaram mais aliviados, a população masculina era maioritária mas havia, mesmo assim, uma representação razoável do sexo feminino, algumas delas bastante interessantes, segundo a douta opinião de Bernardo.

Despiram-se discretamente a um canto. Quando iam tirar a roupa interior, alguém lhes disse que a podiam manter até ao início da orgia se quisessem, ou, pelo menos, foi isso que eles entenderam. Assim fizeram, havia que guardar bem o trunfo para quando o jogo fosse a sério. Um outro tipo corpulento começou a distribuir umas máscaras para que as colocassem durante todo o acto. Pedro achou uma parvoíce, ir colocar máscaras agora que todos já tinham visto a cara um dos outros, mas mesmo assim colocou a sua. Será que iria aparecer alguma alta individualidade? Quando se olhou ao espelho sentiu-se ridículo, estava assim uma espécie de Zorro em cuecas.

- E se eu não conseguir ficar no ponto? – perguntou Pedro aflito, como uma criança pronta a desistir da brincadeira por ter a sensação que não ia ganhar.

- Tarde demais para teres dúvidas existenciais, não achas?

- Não sei se com esta gente toda me consigo excitar, já viste a confusão que vai ser? Olha para o maralhal que está aqui?

- Não penses nisso. Entra na cena, vais ver que no meio daquele reboliço ficas uma fera. Além disso, ninguém te conhece para falar de ti.

O tempo para Pedro hesitar não foi muito. Um tipo, vestido à guarda romano, começou a falar qualquer coisa, em catalão, enquanto que outros dois, vestidos da mesma maneira, rodearam o grupo.

- Não estou a gostar disto – comentou Pedro ao ver as novas personagens com uns arpões de cabo grande na mão. – Para quem vem para uma coisa destas, ver aqueles gajos com paus pontiagudos na mão não anima muito.

Mesmo sem entenderem o que dizia, perceberam que o guarda centurião dava as instruções para o acto. Na orgia podia ser tudo ao molho, mas pelos vistos tinha mais regras do que uma coreografia da companhia nacional de bailado. Perdido por cem, perdido por mil, não se preocuparam mais e deixaram-se ir na onda. Primeira tarefa, tirar a ultima peça de roupa. Num instante todo o grupo ficou pronto a ir a banhos numa praia nudista. Pedro, mesmo assim, lá colocou as mãos à frente, que ainda não estava na hora de mostrar o seu tesouro, queria mesmo impressionar quando estivesse no ponto.

Entraram para uma sala, não muito iluminada, em que um enorme e redondo colchão cobria o chão. Subiram para a plataforma do amor mas ficaram estáticos como que à espera da ordem de partida, que não tardou, pois o guarda romano, que conjuntamente com os outros dois se colocou à volta do grupo, disse qualquer coisa que devia significar começar. Mal foi proferida a palavra de largada todo os colegas sexuais começaram a movimentar-se num ritmo bastante espalhafatoso, eles apalpavam-se, eles rebolavam-se um por cima de outros, eles guinchavam. Pedro, um pouco tonto, olhava especado para tudo aquilo.

- Mais do que prazer, parecem é que estão possuídos – pensou Pedro, enquanto tentava procurar Bernardo no meio da multidão, mas este nem ligou ao olhar do amigo pois já estava bastante empolgado com duas louras que lhe couberam como vizinhas.

Com alguma dificuldade, Pedro tentou abstrair-se e entrar no jogo, começou por procurar algum pedaço de boa carne que fosse bom para mexer, mas não via meio de chegar a terra firme. Por fim avistou uma donzela deitada que lhe pareceu uma boa forma de começar, dobrou-se para chegar a ela mas a meio da viagem foi interrompido. Um grande, gordo e peludo rabo masculino quase que se enfaixou na sua cara. Sentiu um dilúvio de suores frios com a contemplação daquela paisagem tenebrosa a poucos centímetros dos seus olhos. Recuou de imediato e só não saiu a correr porque naquele momento isso ainda seria mais complicado. Enquanto isso, todo o resto do pessoal parecia bastante animado, pelo menos agiam como tal.

Pedro acalmou-se e tentou fazer nova investida, agora que o proprietário do traseiro horribilis já se tinha desviado, mas voltou a ser suspenso na tentativa de acesso ao jardim das delícias, pois o braço de uma parceira, bem animada com a sessão, bateu-lhe na cara e fez saltar-lhe a máscara. O seu acessório de zorro depressa voou e foi cair no meio de um entrelaçado de corpos. Que fazer? Pôr-se de cócoras à procura do sua peça de anonimato, jamais, num cenário daqueles seria a morte do artista, era preferível mostrar a sua graça de fronte, assim como assim, ninguém o conhecia.

À terceira foi de vez, conseguiu finalmente entrosar-se com o pessoal e lá se agarrou a uma espanhola que parecia eléctrica, tanto nos movimentos como no falar. Mais do que deleite, Pedro sentia era uma enorme vontade de rir com tudo aquilo. De repente, quando começou a sentir mais qualquer coisa, sentiu-se a elevar, sentiu que o chão se erguia. Bernardo tinha falado da explosão de prazer que seria uma coisa assim, mas daí chegar ao céu com aquilo tudo ia uma grande distância.

Ao céu não chegou, mas ao topo de um palco foi de imediato. Lá estavam eles, toda a orgia, bem no meio do palco enquanto que um conjunto de actores debitava umas falas para a plateia.

Podiam ter pensado em tudo, inclusive que seriam esquartejados, mas nunca que a famosa orgia, onde se tinham inscrito, era apenas uma perfomance de um grupo de teatro vanguardista catalão que levava à cena a peça a Orgia do Poder, onde, todas noites, recrutava anónimos, através da Internet, para comporem a orgia-quadro que fazia parte do último acto, uma mistura de teatro pós-moderno com uma instalação humana.

Meio cego com as luzes e aturdido com toda aquela movimentação, Pedro caminhou um pouco até à boca de cena para perceber o que se estava passar, mostrando-se assim, como veio ao mundo, a uma plateia. O seu tesouro, no qual ele tinha, digamos, um imponente orgulho, e que até tinha impressionado uma espanhola caliente numa casa de banho, ficou, naquele momento, reduzido a um autêntico tesourinho, quando vislumbrou uma mar de gente a assistir. Os actores, temendo complicações, lá o desviaram para não interromper mais a marcação. Mas ele não parava de olhar tudo aquilo, de boca aberta. Como era possível estar ali? O público também se interrogava porque razão só havia um soldado da orgia que não tinha máscara, especialmente o pessoal da primeira fila, colegas de trabalho de um workshop sobre marketing, que num roteiro cultural na cidade tinham escolhido aquela peça de vanguarda intelectual.

- Oh my God! That one isn’t Pedro, the guy of Portugal? – gritou uma das senhoras do grupo excursionista empresarial.

Aquilo que era uma orgia controlada, quase coreografada, virou, de um momento para outro, uma bagunça. Pedro começou a saltar por cima daquela gente toda para sair dali, mas só sentia braços e pernas a prende-lo, como se estivesse a lutar contra um polvo gigante. Decidido a levar até ao fim a sua fuga não hesitou em empurrar e calcar, mesmos nas partes menos próprias, quem se pusesse na frente. Assim, depois de gemidos de prazer, passam a ouvir-se berros de dor com asneiras, numa língua estranha, à mistura. Mal se livrou da teia labiríntica de corpos, tentou encontrar uma saída no palco, mas as luzes e uma encenação modernista impediam de a encontrar. Só quando deitou abaixo 2 pilares, um arco, umas estatuetas e uns cortinados de veludo vermelho, encontrou finalmente a saída do palco. Quando já estava tudo a ficar mais calmo, Bernardo emerge do meio da pilha de corpos e sai a correr atrás do amigo, afinal pacto era pacto.

"""

Só quando se apanhou no avião de volta Pedro se sentiu aliviado. Ainda nem queria acreditar no que tinha acontecido. Imagens em flash invadiam-lhe a mente. Tentou esquecer todos risinhos parvos dos colegas do workshop no dia seguinte, sempre que olhavam para ele, para ver se dormia um pouco, afinal não tinha pregado olho na noite anterior.

O pessoal do avião quase que entrou em pânico quando ouviu um berro. Pedro, ao ter um pesadelo, gritou, sonhara com um traseiro grande, gordo e peludo a voar mesmo em cima se si.

Paula não percebeu porque durante uns tempos o marido não estava interessado em sexo. Cismava que ele tinha arranjado uma espanhola.

Fama Real

As ruas vestiram-se de gente para ver passar a Rainha.

Por pouco parecia que o tempo se tinha deslocado no calendário, populares com bandeirinhas e flores amontoavam-se para obterem um sorriso, um aceno de sua alteza real, a fazer lembrar uma tarde ensolarada de um velho regime, onde as pessoas, a propósito da passagem de qualquer individualidade, se viam obrigadas a fazer grandes recepções. Não se percebia o que tinha dado naquela gente que normalmente seguia a rotina dos dias, em passo apressado, sem prestar atenção em coisa nenhuma, a não ser que lhes fosse servido em programas cretinos de televisão. Talvez, ver ao vivo a rainha que coroava as revistas de coração, fosse uma forma dos sonhos de cartão ficarem um pouco mais próximos dos seus caminhos pequeninos.

O sol apertava e ela não aparecia, a beleza loura escandinava, gélida e serena, tardava em mostrar a sua graça. Algumas das flores dos bouquets improvisados, para atirar sobre o carro, a mostrar a hospitalidade folclórica do burgo, já murchavam de espera.

- É sempre a mesma coisa, acham-se importantes e atrasam-se. Nós que aguentemos aqui à torreira do sol – resmungou uma popular em voz alta, especialmente porque se aproximava uma câmara de televisão e era preciso aparecer.

Mas o protesto não sortiu efeito mediático, ao fundo avistou-se a caravana real.

 rainha

Começaram os atropelos junto às barreiras para ver passar a diva da monarquia dos países lá cima, assim era apontada a zona de origem da personagem para não tropeçarem em nenhum erro de geografia. Aplausos, muitos aplausos, e uma chuva de flores, murchas, sobre o descapotável que transportava sua alteza. Os seguranças, discretos, isolavam o carro na sua passagem. Não era uma figura polémica mas não se podia facilitar, havia loucos para tudo.

Num momento bem rápido, alguém saltou a barreira, avançou sobre um segurança distraído, há sempre um profissional que não está nos seus dias, e disparou sobre o carro. Mais do que o problema dos tiros, que falharam, foi o peso dos guarda-costas, que voaram em flash sobre a rainha, o causador dos maiores estragos. Seguiu dali directamente para uma clínica para fazer uns exames radiológicos, diagnóstico, 2 vértebras partidas e algumas luxações.

Nas instalações da polícia observavam, por detrás do espelho, o atirador. Que razões teria tido para disparar sobre uma soberana estrangeira, que, além de rainha sem poderes, era a princesa da simpatia? Louco ou uma grande organização secreta por detrás do atentado? Tudo ficava sem resposta, o homem do delito não respondia a nada.

Ali estava ele, numa sala vazia, sereno e paciente, como que à espera do ponto seguinte de uma crónica anunciada. Ao procurar um lenço, maldita constipação, tinha que vir agora, reparou que ainda tinha o telemóvel no bolso, quase que jurava que a polícia lho tinha tirado, mas agora estava ali no bolso do casaco. Estranho. Ingénuo, nem reparou que ele fora colocado lá novamente para que ele estabelecesse alguma ligação. Os Agentes aguardavam do outro lado do espelho. Caiu na ratoeira. Pegou no telemóvel. Marcou um nº da agenda.

- Estou, é das Leituras Editorial? Podia falar com o Dr. Simões Botelho?… Dr. Simões? Boa tarde, daqui fala o Humberto Alves, desculpe estar a incomodá-lo, mas era só para dizer que já pode editar o meu livro… Porquê? Finalmente sou famoso, atirei na rainha.

Prólogo de Nada

 

As gavetas, para as quais escrevemos, tornaram-se, de repente, pequenas e electrónicas, enquanto a ousadia de quem mata algum do pouco tempo livre a desenhar imagens com palavras, a guardar histórias no pasto virtual, cresceu bastante.

 

Alguns pedaços de um imaginário pessoal que é, ao mesmo tempo, um frincha sobre as paisagens dos nossos dias.

F(r)icções imprevistas ao sabor das penas que se levantam do chão, numa poeira digital.